"- A cigarra é um bicho muito chato, né vô? - Você acha? - Eu acho, ela fica fazendo esse barulho chato sem parar. - Eu gosto. Ela tá anunciando que o verão tá chegando. - Eu tenho medo dela porque ela é muito grande. - Ela não faz mal nenhum pra gente, não. Coitada dela, vem pra anunciar que o verão tá chegando e canta até estourar. Você sabia que ela canta até estourar? - Não, vô! Ela canta até estourar mesmo? - Aham! É sério, eu mesmo já vi. - Viu vô? - Vi. Ela estoura e fica só a casquinha dela grudada na árvore."
Por muitos anos da minha infância e pré-adolescência, tudo o que eu sabia sobre cigarras era o que eu tinha aprendido com o meu avô. Para mim, ele era o homem mais inteligente do mundo, sabia de tudo, mas eu, que era criança, não sabia quase nada e queria aprender tudo para ser igual a ele. Todos os netos adoravam ir na "casa do vô", era um desses lugares que têm uma certa magia para as crianças. Lá a gente mexia em tudo o que ele falava que não era para mexer, subia nos lugares que ele falava que não era para subir e tudo mais que não podia fazer. Na estante da sala, dentro de uma portinha trancada com chave, tinha um pote cheio de balas sortidas que ele comprava para chupar durante o dia e para dar para a gente, a que eu mais gostava era a de coco queimado. No banheiro, um pequeno armário de madeira com a parte de baixo fechada por uma cortininha branca, ficavam guardados rolos e mais rolos daquele papel higiênico rosa. Às vezes todos entrávamos na Brasília azul para ir buscar um dos primos, que morava num bairro mais distante, era a maior festa, a maior bagunça. Enquanto eu crescia e convivia com o meu avô, fui aprendendo um pouco de tudo, ou quase tudo: marcenaria, alvenaria, instalações elétricas e hidráulicas. Aprendi, também, a não jogar, ele detestava jogos de azar, dizia que se fosse feito para ganhar chamaria "jogo de sorte" e sempre repetia: "- Meu filho, teima mas não aposta". Era o homem mais teimoso que conheci em toda a minha vida, mas só teimava quando tinha razão, quando não tinha, apenas calava, menos quando se tratava de chupar picolés, ele era diabético, mas chupava dois ou três em seguida e dizia: "- Esse médico não sabe de nada". Uma das coisas que meu avô mais me falava era para estudar muito para trabalhar pouco, porque ele tinha estudado pouco e, por isso, teve que trabalhar muito. Ele sempre falava para eu nunca deixar de ir no “culégio” para não passar pelo que ele passou. Assim eu fiz, e foi numa aula de biologia que descobri que as cigarras são insetos e que, após subirem mais ou menos 2 metros no tronco de uma árvore, abrem uma fenda no seu exoesqueleto, de onde saem, agora com asas, deixando só a sua “casquinha” vazia para trás. Naquele dia a cigarra do meu avô morreu.
Era o último dia de carnaval. Havia ao lado da mesa um engradado cheio de cascos vazios de Malt 90 e mais um que em pouco tempo chegaria na metade. A mesa, na verdade, eram duas que juntaram para caber todo mundo, uma coberta com uma toalha verde e a outra com uma toalha vermelha e, por cima, aquele plástico transparente grosso que ficava colando no braço e às vezes dava umas dobras que deixavam o copo meio tombado. Uma travessa de alumínio, daquelas típicas de bar, com uma porção de jiló frito, outra com uma porção de iscas de fígado com muita cebola e uma terceira com uma boa quantidade de torresmo. Sentados sobre as pesadas cadeiras de madeira, uns usavam calças jeans e camisas desabotoadas mostrando os pelos do peito ou um cordão de ouro, outros ainda usavam a mesma fantasia que já estavam usando desde o primeiro dia, já bem suada, suja, rasgada e faltando alguma parte. Das pequenas caixas de som quadradas penduradas nas paredes vinham, entre chiados, as últimas marchinhas e sambas-enredo daquele ano. Entrei no bar, cutuquei o ombro do meu pai, ele falou para eu pegar o que quisesse, se virou e voltou a conversar com os amigos. Pedi uma daquelas coxinhas que vêm com osso e um Grapette. Quando acabei de comer, pedi para sentar na mesa também, mas meu pai me disse que ali não era lugar para crianças, pois só tinha adultos e só conversa de adulto, me deu um pouco de dinheiro e falou para eu ir jogar no fliperama do lado. Tá aí uma coisa que eu gostava! Ficava horas jogando sem enjoar enquanto esperava por ele. Sempre que eu chegava no fliper, já ia comprando um monte de fichas. Entregava o dinheiro todo que meu pai tinha me dado para o homem do caixa e ele me dava uma quantidade tão grande de fichas que os dois bolsos da minha bermuda ficavam cheios e, quando eu andava, elas faziam uma barulheira danada. Eu começava a jogar sozinho, meus jogos favoritos eram os de luta e os de corrida, mas depois sempre encontrava um filho de algum dos amigos do meu pai ou uma outra criança que estivesse querendo jogar na mesma máquina que eu estava e a gente começava a conversar enquanto jogávamos juntos. Fiz muitos amigos assim. Às vezes eles iam comigo até meu pai e ele pagava lanche para todo mundo. Neste dia, porém, o fliper estava fechado e os meninos estavam todos sentados nos degraus que ficavam em frente. Sentei lá também e fui me enturmando, conversamos por horas. Naquela época as crianças faziam isso, era o nosso buteco.
Só de olhar para aquilo já me embrulhava o estômago. Enquanto aquela pessoa almoçava, tomando junto uma lata de cerveja em temperatura ambiente, um líquido viscoso e azedo ia subindo pela minha garganta. Me dava ânsia de vômito. Uma parada que o ônibus faz no meio de uma longa viagem é importante porque ali a gente desce, estica as pernas, vai ao banheiro, come alguma coisa, alguns fumam um cigarro etc. Mas tem gente que prefere ficar lá dentro mesmo, uns dormindo, outros escutando música, mexendo em seus celulares ou comendo algo que trouxeram de casa. Nem sempre dá tempo de terminarem a refeição e, quando retornamos, acabamos presenciando, de camarote, o grotesco espetáculo. Era uma colherada, com uma daquelas colheres de plástico, na comida já fria dentro do marmitex, seguida de uma golada na cerveja. E eu imaginando o arroz com feijão se misturando com a espuma morna, com um pouco do gosto do alumínio da latinha, e virando uma massaroca que parecia descer, pelo menos um pouco dela, direto pela garganta, sem nem ao menos ser mastigada. Às vezes escorria um fio da bebida pelo canto da boca e a língua, coberta por um pouco daquilo que estava dentro da boca, logo ia buscar de volta. Por mais que a gente tente, não consegue parar de olhar para essas coisas. Não sei o que é isso, mas eu virava a cabeça para o outro lado e quando me dava conta, já estava encarando aquela cena de novo. Parece que esse tipo de coisa atrai nossa atenção, é irresistível, é como um imã. Será que o ser humano, por natureza, gosta de se torturar? Passei todo o restante da viagem suando, com azia e mal-estar. Aquela imagem não saía da minha cabeça. Quando desci do ônibus, peguei minha mala no bagageiro e fui direto ao guichê da empresa para comprar a passagem de volta. Pedi pelo amor de Deus uma poltrona na janela. No corredor, nunca mais!
Um senhor que aparentava já passar dos 60 anos estava agachado em frente à porteira de madeira, de onde partia e retornava uma grande cerca de arame farpado. Levava um cigarro de palha mal enrolado, meio frouxo e torto, no meio do seu bigode amarelado, que deixava subir um fiapo bem fino de fumaça, em contraste com a nuvem espessa que saía pelo canto da boca em longas baforadas intercaladas com pigarros. Usava uma camisa xadrez meio encardida do trabalho na roça, uma calça jeans amarrada com uma corda que servia de cinto, tão apertada quanto nas vezes em que foi usada para fechar um saco no transporte das colheitas, uma bota muito larga para o seu pé, com o cano cortado, toda suja de barro e um chapéu de pescador bem velho e já desfiando. Me aproximei e dei um "boa tarde" que foi respondido com um preguiçoso "taaarde".
- Tudo bem com o senhor? - Bããão. - Tô procurando o tio Joãozinho, ele tá? - Tá. - Posso ir falar com ele? - Vai lá. - O senhor abre pra mim? - Sim sinhô. - Ele tá aonde? - Dendi casa. - Obrigado! Toma um trocado pra você tomar uma branquinha. O senhor gosta? - Ô!
Enquanto tratava de alguns assuntos de família com o meu tio, vi que aquele senhor se levantou e foi andando bem devagar na direção do horizonte até sumir. Tomamos café da tarde e nos despedimos. Dessa vez, fui eu mesmo quem teve que abrir e fechar a porteira. Dei umas voltas pela vizinhança, mas não achei mais o "porteiro" da fazenda para me despedir dele também. Na manhã seguinte, acordei com o telefone tocando na minha cabeceira. Atendi. Era meu tio Joãozinho:
- O faz-tudo da fazenda sumiu. Cê num deu dinheiro pra ele não, né?
Certa noite de sexta, após uma semana muito estressante no trabalho, resolvi sair para a “night” a fim de relaxar um pouco. Liguei para um amigo e marcamos de ir a um lugar para dançar e talvez conhecer umas mulheres. Dançamos bastante. Não era bom dançarino, mas me virava bem com dois ou três passinhos. Conhecemos duas mulheres, com as quais conversávamos entre um drinque e outro, entre uma dança e outra. Terminei a noite com uma delas num hotel. Não gosto de motéis, dão a impressão de que a gente vai lá só para transar. Na verdade, era para isso mesmo que havíamos ido, mas é uma sensação que não agrada muito a todas as mulheres. Acho que elas ficam com a impressão de que vamos pensar isso ou aquilo delas e acabam se sentindo desconfortáveis. Resumindo, tomamos umas bebidas, conversamos, transamos e dormimos. No dia seguinte, ao acordarmos, fomos tomar café da manhã no refeitório do hotel, o que é mais uma vantagem que os hotéis têm sobre os motéis, conversamos bastante, ambos havíamos gostado de estar na companhia um do outro. Trocamos os números dos nossos telefones para que pudéssemos sair juntos de novo e a deixei na porta de casa. Fui trabalhar. Tentei ligar para ela algumas vezes, mas só ouvia: "O número que você ligou não recebe chamadas ou não existe". Nunca mais a vi.
Quem vinha por aquela rua calçada, com certeza passava pela barraca de churrasquinho que ficava no passeio, encostada no muro de um terreno baldio. Era uma daquelas barraquinhas com a estrutura toda de barras de ferro que se encaixam para montar e coberta por um plástico preto grosso. Uma tábua de madeira que ficava apoiada em cima das duas laterais servia como balcão, onde ficavam a pequena churrasqueira a carvão preta feita em ferro fundido e algumas garrafas vazias de refrigerante e cerveja para mostrar quais eram as opções de bebidas, já que não tinha cardápio. No caso do churrasquinho, era de boca mesmo, tinha que perguntar. Um senhor, que estava sempre de boné, fazia tudo sozinho: descarregava a mercadoria, as ferragens, os isopores e tudo mais, montava a barraca, preparava os churrasquinhos e atendia os fregueses. Ele trazia as coisas na sua velha Caravan e na carretinha que vinha engatada nela. Dizia que gostava do que fazia, gostava de trabalhar e que já tinha formado todos os seus filhos vendendo churrasquinho, não ficou rico, mas nunca faltou nada em casa. Dava para notar que ele gostava muito de conversar também, contava sua vida inteira e era cheio de histórias. Da primeira vez que fui na barraquinha, eu ainda era criança e foi meu pai quem me levou. Foi mais ou menos assim:
- Opa! Tudo bom menino? - Tudo bom, moço. - Hoje o papai te trouxe, né? - É. - Boi, porco ou frango? - Frango! - Passa no vinagrete? - Aham. - Passa na “areia”? - Areia no churrasco? - É farofa! - respondeu meu pai rindo. - Ah! Então pode. Bastante “areia”! - Tá na mão! Coca? - Quero. - Taí, geladinha! Manda ver!
Foi o churrasquinho mais gostoso que eu já tinha comido e acho que até hoje ainda é. Ainda são 4 gominhos de carne no espetinho de madeira, a mesma churrasqueira, o mesmo vinagrete e a mesma “areia”. Eu fico rindo da reação das pessoas à pergunta “Passa na ‘areia’?”. Poucas coisas mudaram, a Coca deu lugar à cervejinha gelada e as histórias agora eram sobre o pai que trabalhou até o último dia da sua vida naquela barraquinha.
Quando se está sentado, compenetrado e focado em fazer alguma coisa, uma mosca pode atrapalhar, e muito. Todas as vezes que ela passa próxima ao rosto ou à orelha, o barulho das suas asas batendo freneticamente e as esbarradas que ela dá acabam por nos desconcentrar, nos tirar o foco, atrapalhando o andamento do que se está fazendo e levando, assim, a um atraso na conclusão daquilo. Naquela noite, foi exatamente isso o que aconteceu comigo. Como se não bastasse o calor, que já tornava tudo mais difícil, aquela "bendita" mosca não me deixava quieto. Por mais que eu tentasse me concentrar, ela vinha e zumbia no meu ouvido, ou passava pertinho dos meus olhos... e lá ia eu começar todo o processo de novo, e de novo, e de novo. Já cansado da situação, olhei para o lado e notei que a toalha de rosto estava ao meu alcance, estiquei o braço, a peguei e comecei a dar chicotadas para tudo quanto é lado, mas sem sucesso. A mosca voltava a passar próxima à minha orelha e a soltar no meu ouvido um "zumzumzumzum" que soava como um "hahahaha". Cheguei à conclusão de que, pelo menos naquela condição na qual me encontrava, eu nunca iria vencer a batalha. Desisti do que estava tentando fazer, me levantei do vaso sanitário, entrei no box e abri o chuveiro. Um banho frio daria um jeito no calor pelo menos. Mais tarde eu poderia voltar e resolver o outro problema. Foram cerca de 10 a 15 minutos de sossego, cheguei a quase me esquecer da mosca, mas foi a conta de fechar o chuveiro e ela fez questão de me lembrar que ainda estava ali. Me enxuguei, parando, às vezes, para dar um tapa em algum lugar do corpo, na inútil tentativa de matar ou, pelo menos, espantá-la. Terminei, e agora eu tinha uma toalha maior e molhada, mais pesada. As chicotadas passaram a ser mais violentas e até barulhentas, um barulho que parecia com o de uma tora de madeira caindo num chão com piso de ardósia e o quebrando. O resultado foi o mesmo: nenhum. Já no meu quarto, com a porta fechada para que ela não entrasse, pus meu pijama, tomei um gole de água, me deitei e liguei a TV. Notei que o apresentador do telejornal tinha uma pinta na cara: "- Peraí! Pinta não anda! Ela entrou!". Estava andando na tela da TV. Acho que ela percebeu que eu a descobri ali, pois passou a vir de vez em quando próxima ao meu ouvido para soltar mais um "hahahaha" e voltar para a tela. Agora eu iria mostrar para ela quem mandava naquela casa, quem era o mais forte e mais inteligente. Liguei o ventilador e busquei a toalha molhada, assim ela iria preferir ficar só na tela da TV e eu teria mais facilidade para acertá-la. Não deu outra: acertei. Demorou um pouco. Alguns minutos. Meia hora, na verdade. Quase cheguei a derrubar a TV, que, com a força de uma das chicotadas que dei, ficou com a tela preta por uns segundos. Procurei o cadáver até achar, peguei pelas asas e fiquei observando aquela única perna que ainda se mexia: "- MAS SERÁ QUE VOCÊ NÃO MORRE!" Enfim era chegada a hora de concluir algo que a mosca não havia me permitido antes. A levei junto. Joguei-a dentro da lixeira e me sentei abraçado a ela, segurando a tampa, só para garantir.
Quando você vê uma pessoa de bermuda e chinelo, pode ter certeza de que ela está tranquila, não está devendo nada para ninguém, nem dinheiro, nem satisfação, ela está "de boa", está com a cabeça livre e leve, só relaxando, só vivendo e curtindo a vida em paz. Se estiver na beira de uma piscina, tomando alguma bebida num copo bacana com bastante gelo e um canudo daqueles de dobrar então... Sou mais ou menos esse tipo de pessoa, o que muda é o copo, que no meu caso é o americano, e o conteúdo dele, uma cerveja bem geladinha com um colarinho de uns dois ou três dedos de espuma, daqueles que deixam até um bigodinho branco na gente. Esse bigode faz o papel do canudinho. A piscina é a mesma. É nos detalhes que está o segredo das coisas. Sou bastante observador e consigo interpretar bem o significado de cada um deles, só não sei explicar como faço isso. A piscina representa a alma da pessoa porque a água é cristalina. A bermuda é leve e arejada, o chinelo também, e não aperta os pés. Acho que todo mundo trabalha pensando na bermuda e no chinelo que ficaram em casa. Passar um dia inteiro de calça e sapato, principalmente no calor, representa muito bem o peso de se ter compromissos e prazos para cumprir. Ao final do dia, quando conseguimos entregar o resultado de tudo o que fizemos, o que mais queremos é chegar logo em casa, tomar um banho, vestir a bermuda e calçar o chinelo. O significado da bebida, do copo, do gelo, do canudo de dobrar e do bigode de espuma eu não sei. Provavelmente minha cabeça acabou inventando, mas, pelo menos para mim, faz muito sentido.
Bar que serve almoço é uma tradição que já estava quase desaparecendo, restaram poucos que já eram consagrados. Até algumas décadas atrás, qualquer botequim “pé-sujo” servia pelo menos uma refeição, em alguns casos tinha janta também. Era aquele “pê-efe” de respeito com um bifão do tamanho do prato por cima. O “zoiudo” era outra presença garantida neste prato típico, ele vinha com a gema mole para a gente estourar com a ponta da faca de serrinha e deixar escorrer por cima do arroz branquinho, que vinha no formato certinho da cumbuca na qual eles o colocavam e viravam no prato. O feijão vinha numa cumbuca à parte, assim como a salada de alface com tomate e cebola. A gente entrava naqueles estabelecimentos com azulejos até metade da parede, geralmente nas cores: verde-claro, azul-claro, branco, amarelo ou revezando 2 destas cores, na posição normal (quadrados) ou tombados (losangos), cumprimentava o dono e íamos nos sentar. Ele mesmo vinha anotar nossos pedidos, colocava na mesa o jogo americano descartável de papel com propagandas de lojas e já trazia “uma” por conta da casa para tomar com a gente. Existia um certo nível de amizade, de fraternidade, entre frequentadores e proprietários de bares. O balcão era de madeira e tinha estufas embutidas, que serviam como vitrines repletas de carnes, bolinhos, batatas cozidas, torresmos, empadas, coxinhas e pastéis. De frente para ele, alguns bancos fixos com assentos giratórios de madeira, onde se sentavam os fregueses que preferiam beber ali. Do outro lado, engradados de cerveja vazios ficavam empilhados numa parede, no canto, ao lado da porta do banheiro. No topo desta pilha, o último engradado sustentava uma tábua de madeira com uma TV 14" em cima, transmitindo o jornal do meio-dia. Ultimamente estão tentando resgatar esta tradição. Fazem uma decoração retrô (naquele estilo), reproduzem os pratos clássicos, mas ainda faltam algumas coisas. O dono ainda não aparece sempre, nem se senta para conversar e a comida, apesar de gostosa, ainda não é igual. O profissionalismo empresarial e a higiene excessiva tiraram o gosto da comida e pelo papo.
Aquele senhor no ponto de ônibus me parecia simpático, tinha um semblante tranquilo, uma cara de felicidade. Era um daqueles senhores que usa uma boina de abotoar a aba, pulôver, cachecol, calça social e sapatos sempre muito bem engraxados. Levava um guarda-chuva, que também usava como bengala e dois óculos, um no rosto e o outro pendurado no pescoço, os dois tinham aquelas cordinhas para que ele pudesse ir trocando entre um e outro conforme precisasse enxergar de perto ou de longe. Perguntei se meu ônibus parava naquele ponto, me respondeu que sim, era o mesmo que ele iria pegar. Ficamos esperando, mas não nos falamos mais. Quando o ônibus chegou, só estavam lá dentro o motorista e o cobrador. Entrei e me sentei. Logo em seguida, o senhor entrou e me perguntou, já se sentando, se poderia se sentar do meu lado. Sem ter escolha, eu disse que sim. Ele tirou do bolso da camisa que usava por baixo do pulôver um maço de dinheiro, lambeu o dedo e passou uma nota, lambeu novamente e passou outra e mais uma. Terminado este ritual nojento, ele esticou o braço, esbarrando na minha cara, e entregou o dinheiro ao cobrador. Seu perfume era o Lancaster e ele havia usado uma quantidade exagerada, quase sufocante. Infelizmente, mal sabia eu que o pior ainda estava por vir. De todos os tipos de chato, acho que o pior é o que fica cutucando enquanto conversa com a gente, como se tivesse que chamar a nossa atenção o tempo inteiro por estarmos ignorando o que ele fala. Alguns cutucam no ombro com um ou dois dedos, outros com o cotovelo no braço e, os campeões da chatice, os que ficam dando tapinhas no antebraço. Se existe alguma coisa mais irritante do que isso, ainda não me foi apresentada, e torço para que nunca seja. As histórias da infância e adolescência dele numa cidadezinha do interior, onde todos se conheciam e as casas não precisavam de muros, as portas podiam ficar destrancadas, as bicicletas no passeio, porque não tinha tantos bandidos como hoje e mais alguns causos, até que eram interessantes, mas se tornavam infinitos, assim como a viagem de ônibus que estávamos fazendo, por causa dos tapinhas no meu antebraço seguidos de um “vai escutando”. Aquilo chegava a gelar a espinha e arrepiar os pelos do corpo inteiro. Meu braço estava apoiado na minha coxa, tentei escapar segurando no encosto do banco da frente, mas os tapinhas foram junto, como se fossem um inseto que pousa no braço da gente e não quer sair, só sai quando batemos a mão para espantar, mas com aquela mão não dava para fazer isto. O ônibus leva meia hora para ir do centro até o ponto final, que fica em frente à minha casa, mas neste dia havia acontecido um acidente que deixou o trânsito tão lento que o trajeto levou uma hora e meia. Eu já não conseguia mais prestar atenção no que aquele senhor falava, nem pensar em mais nada. Minha mente agora só conseguia ficar contando os tapinhas. Ao todo foram 365, um para cada dia do ano, até finalmente chegarmos ao nosso destino. Sim, ele foi sentado do meu lado até o meu ponto. Descemos do ônibus e, antes que eu conseguisse atravessar a rua, ouvi um “até amanhã” e ganhei mais um tapinha no antebraço. O ano era bissexto.