Cheguei tarde. Muito tarde. A rua já estava deserta e o porteiro cochilava com a TV ligada passando um daqueles programas que mostram festas de gente rica ou de suas empresas. Continuei até o elevador. Ainda estava quebrado. Cinco andares. Dez lances de escada. Cinquenta degraus. Ainda não sou um idoso, mas também não sou mais um menino. Abri a porta, entrei e sentei no sofá. Fiquei alí por mais ou menos meia hora. Cansado, suado e com dores pelo corpo. Sempre achei que faltavam quadros nas minhas paredes. Queria ter plantas também, mas nunca deu certo. Tudo acaba morrendo. Não consigo cuidar. Como cuidar de coisas se não estou conseguindo cuidar nem de mim mesmo? O dia-a-dia tem sido muito maquinal, mecânico. Não me sinto mais um ser vivo, nem um robô. Menos que um robô, me tornei um autômato. Sempre a mesma rotina. Esqueci o que sou, o que sinto e o que tenho. Pensei que seria bom tomar um banho. Me levantei e fui para o banheiro. Tomei. Foi bom. O banho quente ajudou a relaxar o corpo e a diminuir as dores. Me acalmei e a cabeça começou a funcionar melhor, com mais clareza. E a pensar com menos pessimismo. Como estava com fome, fui para a cozinha preparar alguma coisa para comer. Fazer a própria comida é um tipo de terapia também. Descascar, cortar, temperar, esperar o tempo que cada ingrediente leva para cozinhar. E leva muito tempo. O bastante para pensar. Ah! Se eu tivesse todo esse tempo… Tinha que acordar cedo de novo. Fiz um Miojo.
Na época da minha adolescência, quando iam chegando as eleições, as campanhas dos candidatos eram bem diferentes, eles distribuíam todo tipo de brinde: camisas, canetas, lixas de unha, bonés etc. Além disso, davam festinhas nos comitês de campanha com salgadinhos, refrigerante, música e muito bate-papo. O social, a interação, vinha em primeiro lugar. Outro tipo de evento que a gente gostava muito eram os showmícios: shows de cantores famosos, contratados por um candidato, que fazia um discurso e depois chamava os artistas para o palco. O show começava e, entre uma música e outra, sempre vinha um agradecimento ao candidato que estava patrocinando, um reforço ao número dele e um pedido para voltar nele. Agora não pode mais, é crime. A gente era adolescente e ainda não votava, mas aproveitava as festinhas e os shows. Dava para fazer novas amizades e conhecer umas meninas da nossa idade. Às vezes já rolava um beijo no comitê mesmo, outras só depois, no showmício. Era tão bom que a gente saía pelas ruas vestindo as camisas com os nomes e os números dos candidatos como se fossem abadás, carregava bandeiras e colava adesivos para todo lado. Verdadeiros cabos eleitorais, só que de graça, ou quase, nosso pagamento era em salgadinhos e refrigerantes. Muito barato para eles. As camisas viraram pijamas e, depois, panos de limpeza. As canetas foram de grande utilidade para a gente no colégio, para os pais no trabalho e em casa, para deixar junto com o bloquinho de anotações do lado do telefone. Os bonés eram muito feios e, por isso, a gente não usava nem na campanha. As lixas de unha foram tantas que, até hoje, 30 anos depois, minha mãe ainda tem um monte delas presas com um elástico de dinheiro, e olha que ela usa, está sempre puxando mais uma quando a anterior acaba. As festinhas ainda existem, não participo mais, mas ouço falar que agora rola até churrasco. Os showmícios ficaram só nas lembranças. Já as amizades, muitas ainda duram até hoje.
Enquanto arrumamos as malas para partir, para ir, vamos, também, escolhendo o que queremos levar, o que vai nos trazer lembranças do lar, e, ao mesmo tempo, vamos nos despedindo de tudo o que não vai dar para levar, o que só vai caber na memória. Nunca tem espaço suficiente para tudo nas malas. Onde quer que a gente vá, tem que levar uma bagagem bem grande, dentro das malas e dentro da gente. Tem coisas que a gente não quer levar, mas não consegue deixar para trás. Também não dá para deixar nos lugares por onde passamos, como se tivesse esquecido por lá. Às vezes a vontade é essa, mas é impossível. Essas coisas vão nos acompanhar sempre. Para onde quer que a gente vá. Na hora de retornar, vamos juntando as coisas novas, o que queremos trazer de lá, lembranças daquele lugar onde ficamos por algum tempo, ao mesmo tempo vamos nos lembrando de casa enquanto juntamos tudo o que veio e precisa voltar. Temos que apertar um pouco aqui, espremer um pouco alí, senão não cabem todas as coisas. As malas e o nosso interior voltam mais cheios. Apesar disso, parecem mais leves. É como se o peso extra ficasse no outro prato da balança da vida da gente. O que já carregamos sempre, para onde quer que vamos, parece ficar mais leve na volta.
Acordei assustado de novo. Daquele jeito que a gente acorda quando sonha que está caindo de um prédio. O corpo deu um salto e caiu novamente na cama. Estava muito escuro, só um amarelado que vinha da luz do poste lá fora interrompia um pouco a escuridão. Olhei para o lado, no relógio já era madrugada. A manhã estava distante. Amanhã estava distante. Virei para um lado e para o outro da cama por incontáveis vezes, mas não consegui pegar no sono novamente. Fiquei pensando na vida, na passada e na presente. Pensei principalmente nela. Sim, nela! Sonhei com ela novamente. Nunca a esqueci. Nunca! Quase uma vida juntos, mesmo estando separados. Tínhamos, e continuamos tendo, uma relação muito íntima, do "de dentro" dela para o meu "de dentro". Muito de mim é ela. Mas do meu jeito. Às vezes acho que, na verdade, sou eu mesmo, mas do jeito dela. Quis ir à cozinha tomar um café. Era requentado, mas iria servir. Não consegui me levantar. Meu corpo não respondia. Toda vez que sonho com ela é a mesma coisa. Fico estático, imóvel. Engessado. Mas a cabeça a mil. Fervilhando de ideias, sem ter como tirá-las de lá. Se conseguisse me mexer, pegaria uma caneta e pronto. Com muito custo e suor frio consigo. A caneta funciona como um canudo com o qual eu sugo minha mente. O volume é tão grande que me engasgo, tenho uma crise de tosse e regurgito um pedaço dela.
Os insetos ficaram gigantescos e dominaram o mundo. Suas sociedades são perfeitamente hierarquizadas, cada um tem uma incumbência muito bem definida. Os louva-a-deus desenvolveram uma preferência pela carne humana, especialmente as cabeças. É muito difícil fugir, eles correm, pulam e voam, e quando te pegam, arrancam a cabeça e comem a carne, deixando no chão nossos restos mortais. Baratas e formigas vêm logo comê-los. Vivemos nos escondendo e fugindo. Tivemos que nos tornar veganos, pois não há mais boi, porco ou frango disponíveis para comer. Dividimos os alimentos de origem vegetal com gafanhotos, joaninhas e lagartas. Ainda não conseguimos nos acostumar a andar nús. As nossas roupas acabaram. Enrolamos uma folha em volta da cintura e a amarramos com um pedaço de cipó. Nos tornamos versões apocalípticas de Adão e Eva, não somos o início, mas o fim. Ainda tenho o meu smartphone. Hoje abri o aplicativo de texto e estou escrevendo sobre o que estamos passando, mas a bateria está quase…
A perna subia, girava e descia. Depois repetia. E mais uma vez. Os braços sempre acompanhando, no mesmo ritmo e com o mesmo vigor. Alguns saltos também foram executados. Essa foi a história de um cisne.
Ela chorava demais, copiosamente. O verdadeiro motivo ninguém nunca soube, mas todos desconfiavam. Só podia ser por causa dele. Mas logo ele? Como? Por que?