O grilo, na realidade, é um ser mágico que tem um poder muito especial, ele consegue nos transportar imediatamente para a roça apenas com o seu "cri-cri-cri". Faz carros, asfalto e prédios sumirem. Tudo vira mato, estrada de chão, cavalos e bois e temos aquela sensação gostosa de sossego. Um dia desses, eu estava deitado na minha cama e os barulhos da avenida engarrafada me incomodavam muito, não me deixavam relaxar após o estafante expediente na empresa. De repente, comecei a escutar um "cri-cri-cri" bem distante, mas que já me chamava a atenção. Fui me concentrando para tentar ouvi-lo melhor em meio a toda aquela barulheira e, para minha surpresa, funcionou. O "cri-cri-cri" foi ficando mais alto, como se o grilo se aproximasse cada vez mais da janela do meu quarto, e passou a se sobrepor a todos os outros ruídos que me circundavam. Fechei os olhos e, aos poucos, do meio de uma espessa fumaça que ia se dispersando da minha mente, começou a surgir uma paisagem rural: um pequeno caminho no meio de um matagal verde que levava a uma casinha com uma luz amarelada na varanda, o sol estava se pondo e seus últimos raios desenhavam a silhueta de um horizonte sem fim. Enquanto eu acompanhava o “cri-cri-cri”, tentando descobrir de onde ele vinha, fui me sentindo cada vez mais sonolento, mas não desisti de procurar o grilo que me chamava. Seguindo o pequeno caminho, cheguei à casinha da luz amarelada, bati na porta e ela se abriu. Fui entrando, mas não havia ninguém lá dentro. No final de um corredor havia um quarto, o “cri-cri-cri” ia ficando cada vez mais alto enquanto eu seguia naquela direção. Entrei e avistei um grilo muito grande e colorido em cima de uma cama bem-arrumada e que aparentava ser bastante confortável. Deitei-me ao lado dele e juntos pegamos no sono.
Aquele dedo fino e gelado fazia repetidamente o sinal da cruz na minha testa enquanto o crucifixo do terço que estava enrolado entre os dedos balançava na frente dos meus olhos. Da boca ressecada, com cortes de frio e já quase sem nenhum dente saía um sussurro bem baixinho, não dava para entender nada, só um "ajuda o menino meu Deus" e um "tira o mal dele". Era um ritual místico, fora da minha compreensão. Eu era criança e ficava impressionado e até com medo daquele monte de imagens de santos num altar, Santa Bárbara, Cosme e Damião, São Sebastião, uma figa muito grande e uma carranca, vasos com espadas-de-são-jorge e outros com arruda. As “paredes” eram telhas de zinco, assim como o telhado, e estavam repletas de quadros de homens barbudos de turbante, Nossa Senhora, um com o rosto de Cristo, Pretos-Velhos e Iemanjá. Minha mãe dizia que tem coisas que o médico não cura, ele manda dar remédio, mas não melhora. Tem coisas que não são para doutor, não são coisas da terra e dessas coisas eles não entendem. Ela tinha sua crença no Deus cristão católico, mas também acreditava em simpatias, promessas e benzeções. Achava que era preciso ter fé para curar, não importava qual fé. Quando a pessoa está com quebranto, mau-olhado, espinhela caída, vento virado ou sentido, a gente tem que apelar para tudo. Naquele dia eu estava sendo benzido porque estava com vento virado, tinha tomado um susto e estava caindo muito e não estava comendo direito. No alto daquele morro, subindo aquele caminho de terra batida que deixava os calçados empoeirados, dentro daquele barraco de zinco, estava a minha cura. A benzedeira disse que não tinha luxo, mas que nunca faltou nada. Ela não cobrava para benzer, só pedia que, se a gente pudesse, deixasse algum mantimento porque quem a pagava de verdade era Deus, dando saúde para que ela continuasse a viver e a ajudar as pessoas que a procuram quando estão aflitas. Minha mãe até hoje acredita nessas coisas. Eu não sei se acredito ou não, acho que ainda tenho um pouco de medo. Não faz diferença, o que importa é que o meu vento nunca mais virou.
Aquelas mão hábeis pegavam, com a ajuda de um pegador, os 4 pães franceses que eu sempre ia buscar aos sábados pela manhã, os embrulhava com um papel cinza, que ia sendo virado e dobrado até que se transformava num embrulho, como se fosse de presente, as 2 pontas que se formavam eram colocadas juntas e um barbante passava por elas, as segurando naquela posição, depois o barbante passava por cima de si mesmo, em cruz, para se encontrar novamente e formar um nó seguido de um laço. Sem a ajuda de nenhuma ferramenta, as mãos, com suas próprias forças, arrebentavam o barbante sem dificuldade alguma, eram mãos calejadas e grossas, mas com unhas sempre bem feitas e com aquele brilho da base. A boca se abria em um sorrisinho meio tímido e dizia: "- Obrigada, meu filho! Até semana que vem!". Eu também agradecia e dizia: "- Até!". O pão se parecia um pouco com ela, a casca era meio dura, mas o seu interior, bem macio e quentinho. Nossas interações nunca passaram disso, nunca se alongaram, mas eu me sentia como se estivesse conversando com a minha avó. Quando eu era criança, os estabelecimentos tinham um atendimento menos apressado, menos mecânico, menos robótico, as pessoas que trabalhavam no comércio eram mais humanas e o ambiente era mais acolhedor, menos hostil, como se quisessem que a gente ficasse um pouco mais, diferentemente dos estabelecimentos de hoje em dia, onde parecem querer que a gente vá embora logo e dê lugar para o próximo cliente. Nos dias de hoje, as avós sumiram do comércio e os pães parecem sempre estar murchos, frios e meio crus.
Na infância de muitos de nós, o vermelhão era presença garantida na varanda e às vezes até no chão de dentro da casa de uma avó, tia ou conhecida das nossas mães. Era a cerâmica do pobre. Era o que dava para ter. Às vezes, as casas também tinham pisos de caquinhos na cozinha, área ou nos dois ou três degraus que levavam de um desses locais até o outro. O filtro de barro também sempre estava num cantinho da cozinha ou "lá fora". Em tudo predominava a cor vermelha, inclusive nas listras do filtro. Não sei o motivo, mas me recordo bem que era assim, até os estofados tinham essa cor. A sala da casa das nossas avós sempre tinha uma estante com uma televisão, uma bíblia, uma santinha e umas peças de louça, na parede, um ou mais quadros: de um circo, um palhaço, Jesus, Maria e fotos do seu casamento com vovô. Um grande relógio de pêndulo que quase matava a gente de susto quando fazia aquele barulhão de hora em hora também não podia faltar, assim como aquela cadeira de balanço de assento e encosto em vime. Algumas avós gostavam de tomar café com aquele pão de sal fresquinho que acabou de sair na padaria e depois juntar os farelos com a faca de serrinha até formar um montinho, outras gostavam de ficar coçando a cabeça com o dedo médio enquanto mordiscavam o lábio e tinham aquelas que entrelaçavam os dedos das mãos e ficavam girando os dedões, um sobre o outro, para a frente e depois para trás. Era comum as famílias serem bem grandes, as avós tinham muitos filhos e o dobro ou o triplo de netos. A criançada se reunia naquela casa lotada de gente e começava a correr, brincar, brigar, fazer as pazes, cair, se machucar e deixar a avó maluca. Em toda casa de vó era assim e, apesar de às vezes não demonstrarem, elas adoravam essa bagunça, afinal de contas, éramos todos delas. Filhos e netos delas. Pertencíamos a elas. Agora elas é que são nossas. Dentro de nossas cabeças, elas pertencem às nossas memórias.
“Leva um casaco, meu filho” Esta frase ficava se repetindo na minha cabeça incessantemente enquanto eu tremia de frio andando pelas ruas do centro da cidade depois daquela festa. Minha casa não ficava muito longe, mas o frio fazia o caminho ficar mais longo. As juntas estavam endurecidas e doíam, o vento úmido dava a sensação de que a carne dos braços estava sendo cortada por milhares de giletes, o queixo não parava de bater e os lábios já tinham um corte de tão ressecados. “Leva um casaco, meu filho” Quando se está em um local fechado e cheio de gente, não se sente tanto frio. As janelas estavam todas fechadas, o local era pequeno e havia mais de uma centena de pessoas. A música estava boa e a bebida também ajudava. Assim que cheguei à festa, já avistei aquela mulher e não consegui mais parar de olhar para ela. Tentei me aproximar de diversas maneiras, mas não consegui, ela estava rodeada de pessoas que formavam uma espécie de barreira intransponível. Mais cedo ou mais tarde, ela precisaria ir ao banheiro e esta seria minha grande chance. Não deu outra, pouco tempo depois, lá estava ela indo para o banheiro. Esperei na porta, mas quando ela saiu, fingiu não ter ouvido o meu “boa noite”. Quando já estava de volta ao seu lugar, me olhou com um olhar gelado. Ela era fria. “Leva um casaco, meu filho” Andei o restante do caminho sentindo muito frio, nunca senti tanto frio. Não sei se estava realmente fazendo esse frio todo que eu estava sentindo ou se foi aquele olhar. Não conseguia parar de pensar naquela mulher, mas agora não era mais por sua beleza, era pela sua frieza. Chegando em casa, me deitei no sofá e liguei a televisão. Estava passando uma comédia romântica chata… todas são chatas. Em meio a toda essa chatice, adormeci. Tive um sonho que era um misto do filme comigo e a mulher da festa, um sonho confuso, sem pé nem cabeça, no qual, num certo momento, aquela mulher se transformou na minha mãe e disse: “Leva um casaco, meu filho”.
Aquele sujeito entrou na padaria, sentou na mesa que ficava logo depois da minha, de frente para mim, e pediu um copo muito grande de café com leite, o qual pegava, levava até a boca e, fazendo bico, chupava o líquido emitindo um barulho alto igual ao que algumas pessoas fazem quando chupam a colher com a qual estão tomando sopa. Pediu também um pão com manteiga, que ia molhando no café com leite antes de comer, mesmo ainda tendo todos os dentes em sua boca. Ele colocava para fora uma língua cheia de rachaduras e enfiava aquele pão molhado, pingando e com a manteiga escorrendo dentro da boca, enquanto fazia o mesmo barulho de chupar. Já tinha muitos anos que eu tomava café da manhã, todos os dias, naquela mesma padaria. Bastava eu chegar, no horário de sempre, que já encontrava a mesma atendente me esperando ao lado da “minha mesa”. Ela me recebia todos os dias com o mesmo sorriso, o mesmo “bom dia” e a mesma pergunta retórica: "- O de sempre, né?". Era a minha padaria. Nada nem ninguém tinha o direito de perturbar aquela harmonia. Em dado momento, um pedaço do pão daquele homem caiu dentro do copo e ele ficou tentando tirá-lo de lá usando o dedo indicador e o médio como uma pinça. Enfiou a mão quase até o punho lá dentro, mas não conseguiu “pescar” aquilo. Desistiu e continuou tomando seu café com leite (e pão) que agora já se parecia mais com um pudim. Levantei da mesa, fui até o balcão, sentei num daqueles bancos de madeira, apoiei um cotovelo, fiz sinal para o senhor que ficava no caixa e pedi para trocar o pingado e o pão com manteiga por um quibe e uma Coca-Cola. Lanchei por ali mesmo.
Entrei. A porta do banheiro meio aberta e a cabeça na altura da fechadura:
- Vou só terminar aqui e já vou! Quer alguma coisa? - Tô com sede. - Pode pegar a água na geladeira, se não tiver copo limpo, você pode pegar um na pia e passar uma água. Sem cerimônia, você é de casa! - Beleza!
Abri a geladeira. Uma garrafa de Coca toda amassada, ainda com o rótulo, com marcas de dedos brancas. Peguei pela tampa, que era de guaraná. Dentro da pia havia uma meia dúzia de copos, todos com um resto de alguma bebida misturado com água. Peguei um, entornei seu conteúdo na pia e já ia pegando a Scotch Brite para lavá-lo, quando vi que ela estava coberta por grãos de arroz, caroços de feijão e um fiapo de couve. Perdi a sede. Enquanto me virava para retornar para a sala, me deparei com uma escada que levava para o segundo andar. Em um dos degraus havia uma panela cheia de água com um resto de angu desgrudando do fundo. Fomos para um bar, pedimos uma cerveja e, enquanto conversávamos, eu olhava para aquela cara e só conseguia enxergar o angu desgrudando do fundo da panela. Na parede, uma placa que dizia: