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@edsonbas

Edson Basilio
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@edsonbas
há 11 meses
Público
O despertador do celular tocou. Acordei. Levantei e fui desativá-lo. Havia um pequeno besouro pousado nele. O espantei e ele saiu voando iluminado. Era um vaga-lume.
Notei que a bateria do celular estava acabando e o coloquei para recarregar até a hora de sair para trabalhar. Trinta minutos deveriam ser suficientes para que a carga da bateria atingisse um nível que durasse até a hora do almoço, quando eu a completaria.
Nesse momento fui ver quantas horas eram. Ainda faltavam três horas para o horário que eu havia programado o despertador do celular. Achei estranho, mas voltei para a cama, programei o despertador da televisão, virei para o canto e dormi.
Quando a televisão ligou, levantei-me e constatei que, agora sim, eu havia acordado na hora certa. Pensei que após três horas a bateria do celular certamente estivesse completa. Fui verificar. Novamente o vaga-lume estava em cima do celular. O espantei, ele saiu voando. Peguei o celular. Para minha surpresa, ele continuava com a carga baixa, não dava para levá-lo assim para o trabalho. Voltei a colocá-lo para recarregar, só que desta vez em outra tomada, aquela provavelmente não estava funcionando. Fui trabalhar.
Na hora do almoço, fui outra vez verificar a bateria do celular. Mais uma vez me deparei com o vaga-lume sobre ele. O espantei, ele voou. No entanto, agora todo o seu corpo brilhava, uma luminosidade tão intensa que podia ser notada em plena luz do dia. Esse não poderia ser de maneira alguma um vaga-lume comum. Eu nunca havia visto um que emitisse luz de todo o corpo, nem com tanta intensidade.
Novamente a bateria do celular não havia sido recarregada. Nem um pouco. Aquela criatura estava, de alguma forma, absorvendo a energia dele. O vaga-lume saiu voando pela janela do meu quarto.
Alguns dias se passaram. Comentei o ocorrido com meus familiares. O que ouvi foi que eu estava louco, ou que havia tido um sonho maluco que, por ter sido muito realista, me deixou impressionado. Tentei acreditar na ideia do sonho, mas minha cabeça não deixava.
Resolvi procurar um psiquiatra. Marquei uma consulta. O médico, após ouvir minha história, este pelo menos sem rir, diagnosticou uma mania de perseguição, um tanto quanto paranóica e me receitou um medicamento, o qual, disse ele, era apenas um “medicamentozinho light”, só para me ajudar a lidar com a situação. Tarja preta, mas bem tranquilo.
Mesmo não gostando muito da ideia, resolvi tirar a prova e comecei a tomar o tal remédio. Passei a, quando saía de casa, trancar a porta olhando para os dois lados para ver se alguém me observava e conferia várias vezes se a porta estava bem fechada. Na rua, ficava olhando para trás o tempo todo, pensando que estava sendo seguido por alguém. Qualquer pessoa que me olhasse ou andasse atrás de mim por mais de dez segundos já ouvia um grito: “– O que você quer comigo?”. Isso nunca havia me acontecido antes.
Decidi parar de tomar o medicamento. Passadas algumas semanas, o efeito colateral do remédio desapareceu e minha vida voltou ao normal. Agora sim eu sabia o que era mania de perseguição. Uma coisa horrível. Não queria passar por aquilo nunca mais. Eu não estava louco, nem queria ficar. Não podia ficar dando ouvido a essas pessoas, senão iria acabar ficando.
Eu já estava trabalhando a ideia de que o ocorrido não passara de um sonho lúcido ultrarrealístico, mas ainda queria descobrir o que realmente havia acontecido naquele dia. Aquilo havia sido muito estranho. Aquele vaga-lume não saía da minha cabeça. Foi então que ele saiu. Literalmente saiu pelo meu ouvido e voou pela janela afora para nunca mais voltar.
Chamei um eletricista para dar uma olhada nas instalações elétricas daquele velho apartamento. Um curto-circuito provocado por uma infiltração na parede próxima ao banheiro havia queimado quase todos os fios elétricos que levavam energia para as tomadas, só a da televisão e os apagadores das luzes haviam escapado. Notei que a lâmpada que ficava acima da minha cama era tão forte que me fazia enxergar um ponto luminoso por algum tempo.
Aquele remédio realmente havia funcionado.
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@edsonbas
há 11 meses
Público
"Fede pra danar, mas é gostoso
O bicho é feio, é cabeludo e malcheiroso
Mas no fundo, bem no fundo é saboroso!
Calma, minha gente,
Eu tô falando do gambá!
Ó o Mate! Ó o limão! Limonada! Matê!"

Ele vinha cantando isso aos berros pela praia enquanto batucava com um isqueiro no galão de mate e com uma moeda no de limonada. Andava descalço naquela areia extremamente quente com a maior naturalidade do mundo, enquanto nós, turistas, dávamos umas corridinhas e uns pulinhos para não queimarmos os pés. Usava bermuda e camiseta laranjadas com o desenho de um leão e com o nome da marca Matte Leão, embora não trabalhasse para eles. Na cabeça, um sassá, também laranjado, já encharcado de suor e um pouco sujo de areia. Uma toalha molhada e dobrada duas vezes ajudava a refrescar e não deixava as alças dos galões machucarem os ombros.
A gente, de férias, distraído, procurando relaxar e esquecer os compromissos do dia-a-dia, só quer ficar admirando a imensidão do mar e acaba não prestando muita atenção nas pessoas e nas coisas que acontecem à nossa volta e, por isso, às vezes, acaba tendo a impressão de que só vê essas pessoas de costas ou de que elas não tem cara, mas esta tinha. O fato de cantar uma música tão alto e com uma letra de dupla interpretação fazia com que nunca passasse despercebido, todos queriam saber de onde vinham aqueles versos e olhavam para ele. Assim que percebia que já tinha a atenção de todos, vinha em nossa direção, já sacando um copinho de plástico, daqueles de café, no qual colocava um pouco de mate para a gente experimentar. Entregava a amostra grátis com sua mão calejada, grossa como uma sola do pé, cheia de cortes feitos pela faca que, vez ou outra, escapulia quando estava cortando limões o mais rápido que podia, enquanto tomava conta do mate que fervia na panela, para garantir que a limonada não faltasse para fazer os "meio a meio" no dia seguinte. Em seguida, abria um enorme sorriso de piano por entre uma circunferência branca de protetor solar e nos olhava com aqueles olhos cheios de veias bem grossas e manchas avermelhadas em cima de olheiras bem pesadas. Quando percebia que reparávamos nesses detalhes, pegava o óculos escuro que levava no pescoço, com as lentes totalmente embaçadas de suor, e colocava dizendo que quase não dormia para não deixar a gente na mão na hora que desse vontade de tomar aquele mate geladinho. Cada um de nós pediu um "meio a meio".
Enquanto ele nos servia, contava as dificuldades que passava para sustentar os cinco filhos e a mulher, que não conseguia mais emprego depois de ter sofrido um acidente. Dizia que conquistou tudo o que tem sozinho, com o suor do seu próprio rosto, sem a ajuda de ninguém, só das pessoas que compravam seu mate. Em tudo tinha o seu suor. Tudo era feito com o seu suor. Na minha cabeça surgiu uma pergunta: "- O mate também?". Paguei, agradeci, esperei que ele tomasse uma certa distância e entornei tudo na areia: "- Comprei só para ajudar, nem gosto de mate".
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@edsonbas
há 11 meses
Público
O pessoal lá do bairro adorava o carnaval. Todo ano nessa época era a maior festa, todos se reuniam em uma das poucas casas que tinham uma TV para assistir aos desfiles das escolas de samba de São Paulo e do Rio. Depois vinha a torcida no dia da apuração. Tinha gente que não tinha uma escola preferida, torcia para a que achou mais bonita, tinha quem torcia para essa ou aquela escola, mas a grande maioria torcia para a Mangueira.
O amor por esse período do ano era tão grande que eles até fundaram um bloquinho, que passou a desfilar anualmente pelas ruas do centro da cidade. Os ensaios eram feitos na praça do bairro, cada um trazia o próprio instrumento, que era sempre usado ou improvisado, por causa da falta de recursos, e sem uma boa afinação, pois ninguém entendia muito disso, mas, com toda a vontade e empolgação, acabavam saindo versões meio diferenciadas de sambas e marchinhas clássicos.
Com o passar dos anos, o pessoal foi aprendendo a tocar melhor, a afinar os instrumentos e conseguindo, aos trancos e barrancos, comprar instrumentos cada vez melhores e mais novos. Seguindo por este caminho, foram se organizando cada vez mais, até que um dia o bloquinho virou escola de samba. Escolheram as cores verde e rosa, claro, as mesmas da Mangueira. Ainda ensaiavam na mesma praça, pois ter uma quadra, mesmo que o espaço fosse alugado, ainda estava muito longe daquela realidade.
Ali, naquela praça, começaram também muitos namoros. O pessoal que ia assistir aos ensaios, já tinha até gente que vinha de longe, aproveitava para tomar uma cerveja no bar que ficava do outro lado da rua, para fazer uma fezinha na banca de jogo do bicho, que ficava em uma das antigas casinhas da vila onde antes pessoas moravam, e também para sambar. Enquanto isso, os filhos adolescentes se conheciam, conversavam e trocavam beijos e números de telefone. Várias dessas histórias terminaram em casamento.
Nossa escola de samba também se “casou”. Foi quando a sua maior fonte de inspiração, a Mangueira, se tornou sua madrinha. Daí para frente, vieram vários títulos de campeã, uma sede e a tão sonhada quadra. Enfim, não faltava mais nada.
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@edsonbas
há 11 meses
Público
A ideia era comprar alguns pães, presunto, mussarela, maionese e um refrigerante. Nada de sofisticação, apenas um lanche da tarde.
Saí de casa com uma quantia de dinheiro que acreditei ser suficiente e caminhei até o centro da cidade. Não era muito longe, dava para ir a pé.
Chegando lá, entrei numa casa de frios, ou melhor, quase entrei, pois foi só pôr um pé para dentro da loja e já deu para ver as placas com os preços. O presunto e a mussarela não cabiam no meu orçamento. Risquei da lista.
Segui para o mercado.
No caminho, passei por um boteco, um “pé sujo”, cheio daqueles cachaceiros que estão lá todos os dias, da hora que abre até a hora que fecha. No canto havia uma estufa com alguns salgados que já deveriam estar ali há alguns dias, só de olhar para eles dava azia.
Já no mercado, procurando pela maionese, passei pela seção de frios e resolvi dar uma olhada nos preços. A mussarela definitivamente estava descartada, mas quem sabe o apresuntado no lugar do presunto? Não deu também. Ah! A mortadela! Esta sim! Essa não!
Cheguei à prateleira da maionese. Até que não estava tão cara, mas não dava para comer pura. Então me lembrei do pão. Como posso ter me esquecido dele?! Nosso sagrado pãozinho de cada dia, que nunca faltou na nossa mesa. Ali só tinham pacotes de pães de forma, que, por virem com uma quantidade grande de pães, acabavam por custar mais caro do que eu podia pagar.
Resolvi ir a uma padaria.
Passei pelo mesmo boteco “pé sujo”, que continuava com os mesmos cachaceiros e a mesma estufa dos salgados velhos que davam azia.
O cheiro de pão fresquinho quando se entra numa padaria na hora que está saindo uma fornada é incomparável. Nesse momento me deu tanto apetite que a barriga até roncou…. mas o preço do quilo do pão tinha subido de novo.
Conferi novamente o quanto eu tinha de dinheiro no bolso e fiz uns cálculos. Dá! Dá sim!
Entrei na farmácia que ficava ao lado da padaria, comprei um sachê de sal de fruta e enfiei no bolso.
Voltei ao boteco “pé sujo”. Os cachaceiros ainda estavam lá, e os salgados também. Me aproximei do balcão e pedi meia dúzia de empadinhas.
O lanche da tarde estava garantido.
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@edsonbas
há 11 meses
Público
"Falinfofélis: A plantinha mais triste do jardim"

Escrevi esse livro para a minha filha e, se possível, espero conseguir publicá-lo.
As ilustrações ainda são provisórias, geradas por IA só para não deixar uma página em branco com apenas uma frase.
Leiam para suas crianças, acho que elas vão gostar:

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@edsonbas
há 11 meses
Público
Aquele lugar estava cheio de macas ocupadas por pessoas que pareciam estar doentes, mas ali não era um hospital, era imundo e cheirava como um abatedouro, um cheiro forte, ferruginoso de sangue e de carne podre.
Em uma das macas pelas quais passei, havia um menino negro deitado, imóvel. Ele tinha um risco na testa que ia de uma orelha à outra. Impressionado com aquela visão desagradável, resolvi continuar a caminhar pelo local.
Observei que havia também jaulas ocupadas por cachorros. Mas algo estava errado, os cachorros pareciam ter o corpo de uma raça, a cabeça de outra e as patas de uma terceira raça, todas as partes do corpo de cores diferentes. Ao me aproximar mais, percebi que eles tinham costuras em suas juntas, o pelo ora era liso, ora crespo, e eles espumavam muito pela boca. Perturbados com a minha presença, eles começaram a latir muito alto. Achei melhor não continuar naquela direção.
Voltei na direção das macas. O menino negro virou-se para o lado pelo qual eu me aproximava, porém, a parte de cima de sua cabeça se soltou e ficou em cima do travesseiro, como se fosse a tampa de um pote, deixando seu cérebro à mostra. O risco em sua testa era, na verdade, um corte. Então, o menino olhou dentro dos meus olhos, abriu a boca já pálida e sussurrou bem baixinho, sem força nenhuma em sua voz quase inaudível, enquanto apontava para seu cérebro: “– Tá vendo meu cérebro? Eu tô morrendo. A sensação é horrível.”
Não me lembro como saí daquele lugar, apenas que acordei já na minha cama.

-> Esse texto foi baseado em um pesadelo que eu sonhei.
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@edsonbas
há 11 meses
Público
Ele era bem pequeno, tanto o corpo quanto os membros. Sua pele era lisa e brilhosa. Parecia um bebê, mas não um bebê de verdade, estava mais para uma boneca daquelas com as quais as meninas brincam. Ao mesmo tempo, ele se assemelhava também a um boneco de porcelana.
Acordei meio tonto, com as vistas embaçadas. O “boneco” tinha em suas mãos uma faca e ao seu lado um galão cheio de um líquido amarelado. Em sua frente havia uma pessoa de pé, estática, a qual, na medida em que fui recuperando a visão, percebi que estava morta e que era segurada por uma estrutura metálica. Aquele ser estava estripando as entranhas do cadáver. Ele o deixou oco.
Ainda sem conseguir me levantar, mas tentando, me esforçando, presenciei aquela carcaça sendo costurada depois de ter sido enchida com algum material que eu não soube identificar. Após tudo isso, seu órgão sexual foi arrancado e o buraco que ficou foi tampado. Subindo numa escada, o serzinho maquiou o “empalhado” e começou a passar, com um pincel, aquele líquido amarelado e viscoso por todo o corpo do morto. Agora o que se via era um boneco de porcelana em tamanho natural.
Comecei a sentir meu corpo e achei que já poderia me levantar e sair correndo. Mas para onde? Virei a cabeça para a esquerda e vi um pequeno corredor com uma escada no final. Levantei-me e, antes que eu começasse a correr, o bebê-monstro gritou algo que não consegui entender e em seguida surgiu um outro ser, só que esse era gigantesco. Saí correndo. O menor deles então gritou: “- Pega ele!”. O maior respondeu: “- Sim senhor, capitão!”. Após dizer isso, ele veio correndo meio desengonçado atrás de mim. Comecei a descer aquela escada correndo o mais rápido que eu podia, de dois em dois degraus, às vezes pulava uns cinco para terminar de descer aquele lance mais rapidamente. Vez ou outra eu dava uma olhada para trás e não o via, mas ouvia seus passos descendo também. Finalmente cheguei à porta do edifício e fugi para a rua.

-> Esse texto foi baseado em um pesadelo que eu sonhei.
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@edsonbas
há 11 meses
Público
Há algum tempo, mas nem tanto, quando uma criança estava com anemia, fraqueza, tontura e pálida, os avós e bisavós logo "receitavam" feijão feito na panela de ferro, juntamente com pregos, de preferência enferrujados. Toda família tinha alguém que sempre contava: "- Isso vem de muito tempo, passou de geração pra geração, é a sabedoria dos antigos. Funcionou com todo mundo da família, seu tio mesmo era uma criança cheia de problemas, agora olha o tamanho do homão, olha como cresceu e ficou forte!".
Na minha família, não era diferente, digo, era sim, porque o princípio era o mesmo, mas a receita era bem diferente, nós tomávamos a famosa Sopa de Martelo da família. Todo mundo lá em casa já tinha tomado. Todo mundo conhecia e tinha medo daquele martelo velho que era até alaranjado de tanta ferrugem. Ele ficava pendurado lá no fundo da garagem, era muito antigo e foi passando de geração para geração, “curando” todo mundo.
A receita da sopa não era muito difícil, o martelo e algumas batatas eram obrigatórios, pois ele soltava a ferrugem e elas a "chupavam" e acumulavam para depois serem comidas e levarem o ferro para dentro do organismo, assim como o caldo, que era a água suja de ferrugem. Os demais ingredientes poderiam ser qualquer coisa que tivesse na despensa ou na geladeira: cenoura, cebola, abóbora, carne de ontem, ovo cozido cortado em rodelas. Não tinha restrições, tudo e qualquer coisa que ajudasse a disfarçar aquele gosto horrível era bem vindo, mas não adiantava, nada disso funcionava.
Naquela época não se sabia muito sobre o que causava as doenças e como se prevenir. A friagem, por exemplo, era um dos piores males que existiam. Tudo era causado por ela. Não se podia sair na friagem, muito menos se estivesse com os cabelos molhados, nem andar descalço no chão frio para não gripar, se gripasse, com certeza a culpa era dela e era "bom para aprender a obedecer e não sair na friagem". Tudo era meio que intuitivo, por dedução e por similaridade, por isso, tal como o frio causava uma gripe, a febre era tratada com banho gelado e a falta de ferro era tratada com ferrugem. As pessoas tinham mais medo dos “remédios” do que dos sintomas das doenças.
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@edsonbas
há 11 meses
Público
A porta gritou jogando duas moedas sujas no balcão: – Me dá dois cigarros no varejo!
Um cigarro na orelha, o outro na boca: – Tem fogo?
Três puxadas e a ponta já está em brasa. A brasa fica mais forte, mais brilhante – a primeira tragada. A fumaça sai devagar pelas narinas e por entre os dentes. O indicador e o polegar apertam o filtro, tirando o cigarro da boca, o médio bate a cinza – todos eles amarelados nas extremidades, assim como as unhas, essas até a metade. Mãos um tanto quanto nojentas – as palmas suadas e encardidas, uma sujeira preta por debaixo das unhas. Uma ajeitada no boné, que tinha manchas de suor que mais pareciam desenhadas com alguma tinta gosmenta encontrada ao acaso num depósito de lixo. Os dentes, amarelados também da nicotina, após mais uma forte tragada, soltaram uma baforada espessa na cara do balcão, que nela pôde ler com muita dificuldade – uma letra muito miúda e mal escrita – um “obrigado” tão amarelado quanto o recipiente de onde veio. O “obrigado” se desvaneceu com o bater da porta ensebada: – Estranho, não?! Não deve ser dessas bandas... Realmente não é. Nunca foi visto pela vizinhança, quanto menos aqui.
A porta torna a gritar, na mesma altura, no mesmo tom e com o mesmo bafo, que o balcão logo reconheceu: – Me dá um copo de cachaça! Até o risco!
O copo, já pela metade, se dirigiu ao banheiro. Após uns minutos ouviu-se um barulho. A cadeira, que estava mais próxima, levantou-se, toda torta, e entrou no banheiro – as cadeiras costumam ser muito curiosas. Lá dentro podia-se ver que após derramar-se um pouco no vaso brancamarelamarronzado, o copo caiu, bateu a cabeça na pia e se quebrou deixando no chão uma poça de cachaça, que agora já era avermelhada.
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@edsonbas
há 11 meses
Público
Já estava pronto para sair.
Abri a porta da sala e vi que a chuva estava pior do que parecia. Com a casa toda fechada, eu estava me baseando só no barulho.
Fui até a janela que ficava do outro lado, pois de lá dava para ver o ponto de ônibus. Estava tudo branco de tanta chuva que caía e ventava muito, o guarda-chuva não iria dar conta. Fiquei quase meia hora olhando e não passou nenhum ônibus.
Resolvi tirar os sapatos, deixar os pés respirando e à vontade. Meu Deus! Como esses sapatos apertam! Assim que a chuva estiar, calço eles novamente e saio.
Olhei pela janela por mais 10 minutos. Nada. Abri a porta novamente. As poças no chão estavam enormes e as enxurradas pareciam as Cataratas do Iguaçu.
Tirei o paletó e pendurei no cabideiro ao lado da porta. Afrouxei a gravata. Respirar, sim respirar.
Liguei o ventilador, sentei no sofá e pus os pés no pufe.
Comecei a pensar se realmente valia a pena ir àquela festa. Eu nem conhecia as pessoas direito.
Lembrei da minha infância, quando minha mãe me levava às festas das suas amigas, nas quais só havia gente mais velha e nenhuma diversão para uma criança. Na maioria das vezes eu saía andando pelas casas à procura de alguma coisa divertida, mas, vira e mexe, quebrava um item decorativo: um vaso, uma xícara ou algo no estilo.
Às vezes íamos a festas de primos que eu nem conhecia. Na maioria das vezes não dava tempo nem de me enturmar. Ficava meio sem jeito de me aproximar e só observava, de longe, os presentes sendo abertos e como brincavam com eles. Alguns salgadinhos, o parabéns, o bolo, os docinhos e já estávamos voltando para casa.
Neste momento, dei uma olhada no relógio e mais meia hora havia se passado. Olhei novamente pela janela e deu para ver a silhueta de um ônibus passando.
Acabei de tirar a gravata, desabotoei a camisa, arregacei as mangas e tirei as meias.
Fui à cozinha tomar um copo d’água. Na mesa havia um último pedaço restante de um bolo que eu estava comendo há dias no café da manhã, dei a primeira mordida e me lembrei do Toddynho do meu sobrinho, que estava na geladeira. Resolvi tomar, depois era só comprar outro, ele só viria aqui em casa de novo na semana seguinte.
Desta vez o saudosismo veio de forma mais agradável. Lembranças boas foram voltando à minha memória. Lembrei de um videogame que estava guardado desde o final dos anos 90, fui buscá-lo no meio dos meus cacarecos.
Voltei para a sala.
Anos atrás, as garrinhas eram conectadas à entrada da antena da TV, mas agora precisavam de um adaptador. Eu tinha. Conectei tudo, liguei o videogame na tomada e apertei o botão “Power”. Ele funcionou direitinho, exatamente do mesmo jeito que funcionava antes.
Achei na caixa o cartucho do jogo que eu mais gostava de jogar na minha adolescência, soprei embaixo e inseri. A manete boa era a que tinha uma marca feita com corretivo. Peguei ela e virei a madrugada jogando, só de samba-canção.
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