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Sonetinho
Uma lágrima - muito pouco para provar Que me amas como queres que creia; Mal molha o rosto, de quem não soube amar; Nem apaga o fogo que ‘inda me incendeia.
Duas lágrimas - mas já é por demais tarde; Já não me tens em corpo e mente, já não sou Aquela chama de amor, que em teu peito arde, Aquele amor em chamas, que já te queimou.
Não chores, pois, com quem não mereça: Levante o rosto, olhe em frente e cresça; E não tente precisar mais de meus lábios;
Que eu não quero mais ter sua companhia: Quero seguir a trilha, com a mente vazia, Como fazem, por solidão, todos os sábios.
Não te amarei pela vida inteira; Isso é apenas algo para enfeitar Um poema; nada dura desta maneira, Tampouco um amor haveria de durar.
Todo poema é, por excelência, exagerado: “Te darei tudo, as estrelas, o céu, o mar...” Esta não é a vida real; está errado Prometermos coisas que nos é impossível dar.
Não; não serás a única; tampouco a derradeira; Haverei de amar muitas, e tantas... E a cada uma direi ser a mais faceira, E as adorarei como se adora às santas.
Entretanto, ainda é por ti que meu coração palpita, É a ti que amo, ainda, e mesmo assim Ainda são teus poemas de quem acredita Que terá teus carinhos por perto, junto a mim...
Por isso, ainda te adoro intensamente De um amor febril, eterno e louco; E continuarei te amando eternamente ‘Inda que este eternamente dure só um pouco.
Não troco nosso trato em qualquer troco; Não trato com tristeza este trabalho. Extraio a vida de qualquer trancalho E espalho trovas como um bom matroco.
Das tripas, nas entranhas, transformadas Coração; trago o extrume ao mostruário De minhas tramóias, e antes que o cérebro dispare-o, Distrato o trato das minhas mágoas encrustradas.
E ao trazer à tona tantos sentimentos, Entrego-me à solidão e ao ódio atro, E entro em transe, e através do meu teatro Um tribal monstro vem trucidar meus tormentos.
Destranco a trava que à porta traz-me às ruas E através das travessas e das entradas Em teu tributo entrego-me às transas e trepadas Das triviais donas, travessas e seminuas
E, então, trôpego, em meu trilhar intrépido, Trago de volta tristezas e transtornos. E entre um e outro trago, eu me distraio E traço um traço triscando entre o tráfego.
Transito trôpego, e tropeço a três-por-quatro, Nos trapos da minha Saint-Tropez destroçada. E, rumo à porta, atravesso a calçada E entro em casa, e ponho fim ao meu teatro.
E minhas mãos, de forma trêmula e atroz, Sempre me traem e trazem teu retrato. E ao trair teus sonhos, eu, num final ato, Retorno ao trato, torno a ti, retorno a nós.
Eu sou Um poeta que te ama. Eu sou palhaço que o público inflama, Sem ter riqueza, nem poder nem fama, Sem ter, às vezes, aplausos sequer; Eu sou um poeta, que deseja apenas Segurar pra sempre tuas mãos morenas E fazer de ti minha mulher. Eu sou Um poeta que te quer.
Eu sou um poeta, que da poesia Já se cansou; já não vê magia; Eu sou moleque, em minha fantasia, Que te recobre de presentes, de amor; Da minha tristeza faço tua alegria, Pois sou a Lua, que na noite fria, Te traz o dia, e te dá calor. Eu sou Um poeta cantador.
Eu sou Um poeta que te ama. Eu sou aquele que, dia e noite, te chama, Na esperança de te ter como minha dama A minha eterna dama, que, agora, Vem me brindar com o olhar mais bonito, Que em mim reflete o mais profundo infinito, E que, por fim, manda esta tristeza embora. Eu sou Um poeta que te adora.
E, sendo assim, um poeta que te adora, Serei também a noite, que espera a aurora Pra iluminar minh’alma, sem demora; Eu sou leão, sou covarde, sou profeta, Que te coloca sempre em minha profecia, Pronunciando que terei você, um dia, E de presente, dar-te, então, a bela rosa, A mais pura, púrpura, maravilhosa, Em cujo espinho a nossa ilusão espeta: Sou poeta.
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