De tudo, nesta vida, um pouco, Sou eu, de poeta a louco, E de louco, onde sei poder Abraçar a noite, ardorosa; Oferecer-lhe uma rosa, Amar, beijar-lhe... e morrer. São meus os eternos gritos Tão selvagens, tão aflitos; Tão cheios de graça e bondade; E eu quebro todos os mitos; Eu sopro meu ar de Carlitos E enfio no bolso a cidade.
Meu Deus! Como sou boêmio! Meio doido, meio gênio; Que nem penso no acordar. Pois a noite é uma criança: E de esperar só se cansa, E perde por esperar.
Sou da rua, sou moleque, E antes que o corpo peque, O espírito que me guia Vai pedir perdão às traças: Nos bueiros, nas vidraças; No calor da noite fria.
E que logo venha o inferno, Que neste céu eu hiberno, Ao clarear do dia.
A Vó Maria (Acordei esta manhã, vindo de um sonho do passado. Travesseiro molhado pelas lágrimas da saudade. Então, nostálgico, me lembrei desta crônica. Às vezes a emoção é algo que apenas nós sentimos; talvez para quem a ler pareça uma crônica simples, palavras organizadas e estruturadas. Uma historinha comum. Mas, pra mim, não é... Então, esta vai para quem quiser ler, com emoção)
A VÓ MARIA
O tempo passa para todos, com a sua implacável indiferença...
Lembro das ruas perto da casa da vó, que a gente subia correndo quando ia visita-la (mas não correndo muito na frente, pra não se perder). As lojas e casas antigas, a padaria na esquina, os muros de cimento chapiscado. Tudo lembrava passado, tudo lembrava dias de sol. Lembrava infância.
E hoje, quando vejo os primos, é tão difícil entender como pôde ser isso!... Uns casaram, outros têm filhos, outros já casaram de novo!... Para onde foram aqueles dias, aqueles dias de sol, brincando no quintal da vó, tomando cuidado para que a bola não batesse nas flores...
Ah, as flores da vó!...
E, de repente, parece que tudo ainda está ali: que amanhã vai fazer sol e calor, e que a gente vai lá na vó brincar com os primos e primas, correndo pelo corredor e subindo na mureta do poço, se sujando no chão de cimento quebrado... E que a vó vai aparecer na porta da cozinha, pedindo para que a gente venha almoçar e que pare de bagunça (porque, às vezes, nós merecemos uma bronca mesmo).
E a gente vai se sentar em volta da mesa, naquela cozinha enorme, com aquela vó enorme (sim, porque nós éramos muito pequenos ainda...) e comer cantando, atrapalhados pelos latidos do Toquinho, o cachorro da tia que morava na casa ao lado. Hoje eu olho para os filhos dos primos, para os bisnetos todos da vó, e fico imaginando quem os chamará para comer, quem irá ralhar quando eles sujarem a roupa do varal, quem os porá para dentro porque vai chover... Eu os vejo brincar, correr, reencontrar os outros primos que moram longe, e fico pensando se não posso correr com eles também, “vamos brincar, vem me pegar, tá com você!”
Aquela casa minúscula, no fundo do quintal, às vezes escura, mas cheia de vida, já não vai mais me levar ao passado. Ao tempo que eu podia abraçar a vó e tomar café e lembrar que era criança. Ao tempo em que a gente botava grãozinhos de feijão no algodão, prá umedecer e ver brotar a vida. (Ah, se a gente pudesse fazer brotar a vida de quem amamos tal qual um feijãozinho, só com um pouco de algodão e água!...)
E, apesar de saber do sofrimento da vó nos últimos tempos, apesar de saber que ela finalmente vai poder descansar, choramos todos, por saber que ali está o destino de cada um de nós, por saber que assim é, que não há dias de sol nem grãos de feijão que resistam ao tempo, ah, o tempo, esse trem que passa, inexorável e indiferente.
(Mas acho que perdi a conta...) (E nem percebi que, sim, estamos em maio... mas esse maio é mais antigo)
**Sonho de Maio**
Um dia me verás com os olhos d'água transbordando de tristeza minha mágoa, pra que jamais ela volte a me assustar; e neste dia, calmo e delirante, terás em mim o seu melhor amante, o seu amado, o seu amigo; o homem certo pra te amar. Sim; me terás inteiro em tua fina e perfumada pele de menina onde a saudade já não existe mais; ora, que se hoje de saudades canto, amanhã enxugarei teu pranto, pra que não voltes a chorar jamais.
Tola sina, vaga de certeza; se não encontro hoje em tua frieza um só motivo que me faça desistir de afagar os teus cabelos morenos, e me ajoelhar ante os pés pequenos; o que me resta apenas é prosseguir a clamar pelo amor que eu sei que existe, e se hoje, ao dizer não, me deixas triste, não me entristece mais porque te adoro; e diante de tão fútil negação perceberás que não adianta dizer não se mesmo sabes que dentro de ti 'inda moro.
Talvez por isso seja eu tão renitente em alcançar de alguma forma o beijo ardente que dos teus lábios me parecem seduzir; para que mesmo depois de o Sol se pôr possa provar com carinho o teu sabor, e que a doçura em mim possa refletir o teu olhar, que por mim irá brilhar, e mais e mais, quando em meus olhos se inspirar. E que a Lua, nesta madrugada quente, venha roubar desta tua luz maravilhosa com reverência, pra que brilhe, majestosa, iluminando o nosso céu eternamente.
E se, por ora, idolatrando-te destarte, Lhe paire a dúvida de que sempre irei amar-te, não cegue os olhos com injúria tão cruel: apenas deixe transparecer na retina que és minha musa, minha inspiração divina; és minha aura; és minh'alma; és meu céu.
- Responda, violino, onde vais tocar, Assim, deste jeito, a nos deixar sem fala? - Minha pobre viola, subirei no altar E serei o centro, e serei o spalla!
- Mas, diga, violino: o que vais tocar Para alegrar esta manhã triste? - Meu súdito cello, tocarei eu Bach E tocarei Mozart, e tocarei Liszt!
E serei xodó de Vivaldi, e tanto Que ele, a mim, confiará sua primavera; E despertarei, ao mundo, tal encanto, Que haverão canções como nunca houvera.
Mas tu, minha irmã, se isto a consola, Tu nunca serás, nesta vida, spalla; 1Nem nunca terás, singela viola, Nem frase e nem palco onde possas tocá-la.
Ao passo que tu, meu simplório cello, Jamais saberás o que é estar à frente; E nem o que é puro, e nem o que é belo, E não sentirão tua falta, se ausente.
Mas, eu, terei sempre os portões abertos E receberei de todos as palmas E emprestarei meu nome a concertos E tocarei solos, e tocarei almas.
- Pois quanta arrogância há no teu agudo! Meus graves jamais gostariam de sê-lo; Voz esganiçada! Antes fosses mudo! Saibas tu que muito me orgulho em ser cello!
- Teu grande defeito – deves percebê-lo! – É teu timbre tosco, que cansa e que amola: Minha voz é um veludo, e, tal como o cello, Também eu me orgulho em ser uma viola!
Agora vai, anda! Vai tocar teu Bach! Estoure as suas cordas, meu caro menino! Pois sem nossa ajuda, ninguém ouvirá O som fraco e tosco d’um reles violino!
Seguindo a sessão nostalgia, vou postar um poema-exercício que fiz naquela época (naquela lá, nos anos 90, antes de os dinossauros se alastrarem sobre a Terra). Pra variar, não é muito bom (afinal, é um exercício), mas traz apenas rimas proparoxítonas perfeitas. Não é fácil. E ainda tenho que passar uma ideia (neste caso, o balanço entre o ateu e o cristão). Lembrem-se dos meus 16 anos: Relevem.
Soneto Proparoxítono
O pensamento do cético, Ainda que seja exótico, Sentimental, patriótico, E que chegue a ser patético,
Tem um ar meio profético, Dentro de um globo ótico, Sem que se torne neurótico, Sem chegar a ser caquético.
Mas quem crê não é lacônico, Seja cristão, evangélico, De pensamento antagônico,
Até mesmo maquiavélico; Mas nunca é catatônico Porque crê; é um ser angélico.