E as promessas que não iremos cumprir Seguimos fazendo-as, só pra distrair À espera do céu, que dizem, vai intervir E enfim teremos motivos pra sorrir
O fôlego gasto ficará para trás E os lábios, nem se lembrarão das palavras a mais As preces, as pragas, maldições em vão Rotundos redutos criados para manter as crianças acordadas, com medo da noite
E as algemas que iremos aceitar Nos permitindo deixar de sonhar Um inferno tal qual o paraíso que insistem em desenhar Afim de algo que nem eles são capazes de notar
Sôfregos nos tornaremos Inquietos, anárquicos, nos perderemos Então a visão ficará clara, Assim como a paisagem no deserto a nossa volta
Dentre todos os textos da série "12 Textos p/ Teatro", com certeza este é um dos mais desafiadores. Recorrer à poesia para contar uma história tão dolorida a tantos é, talvez, o desejo interno de suavizar o que não pode ser suavizado, mas que nunca pode ser esquecido.
>> E CONTINUAMOS CONTANDO...
Abri os olhos, Mil corpos, deitados à minha direita, mil corpos à minha esquerda. Aos poucos eles se levantaram. E fomos seguindo, caminhando, feito uma criação que nasce, cresce e se alimenta, até que chega o dia do abate.
Ian - Já vou! Mas você tem mesmo certeza que é seguro lá fora?
Edwiges - Tenho sim! Não precisa se preocupar! Eu já falei com o Vladimir e também com o Hans e eles prometeram te deixar em paz. Aliás, também disseram que não vão mais brigar.
Ian - E você acreditou neles?
Edwiges - Eles pareceram sinceros. Pareceu-me um acordo sério… De cavalheiros!
Ian - Tá bem! Eu vou com você, mas pra onde vamos?
Edwiges - Vamos brincar de esconde nos campos de trigo? Eu adoro e dá pra gente chamar todo mundo. Como era lindo brincar nos campos de trigo. O Sol iluminava os cabelos ruivos da Edwiges e eles brilhavam… feitos estrelas. O Hans e o Vladmir, sempre brigando, com todos e às vezes entre eles. E quando isso acontecia, todo mundo se envolvia e não tinha como ficar de fora. Estava feito no mundo o estrago.
Hans - Ei Ian! Nós fizemos um trato!
Vladmir - Isso mesmo! E chegamos a uma conclusão.
Hans - Nós prometemos a Edwiges que te deixaremos em paz!
Vladmir - E que não vamos mais brigar entre a gente!
Ian - Nossa! Fiquei surpreso, com tal decisão. Tão adulta.
Hans - O que você quis dizer com isso!? Está zombando da gente, seu…
Vladmir - Calma Hans! Olha a promessa! E a Edwiges tá olhando.
Hans - Você tem razão! E quer saber!? Nós estamos nos tornando adultos sim e não podemos perder tempo com essas bobagens.
Vladmir - Isso mesmo! Chega de perder tempo com bobagens.
Edwiges - Vocês vão se esconder ou não vão!? Faz meia hora que estou contando aqui!
O 8º texto da série "12 Textos p/ Teatro Que Escrevi Enquanto Estava Falido" se chamará "Os Cartazes de Ontem".
Que tal uma espiadinha no prólogo da história!?
-- PRÓLOGO
Acordo no meio da noite e ela está lá… na borda da ponte olhando pra baixo. As águas correm ferozes, devido às fortes chuvas dos dias anteriores, expressando sua fúria pelos lixos acumulados por toda sua extensão.
Ela segue lá, imóvel e olhar fixo… perdido.
Só me passa uma coisa pela cabeça, uma dúvida… A salvo ou a empurro?
…
A cama estava molhada. A roupa molhada do suor frio que reinara na madrugada. Que alívio! Era só um sonho…
Era só um sonho, né!?
…
Uma carta sob a escrivaninha, com a assinatura dela e os dizeres:
Nunca te perdoarão pelo que você fez, mas obrigada por acatar o meu último desejo.
O papel velho e amassado, ainda cheirava a tinta… Tinta e chuva.
…
As ruas estão encharcadas. A chuva se foi, mas nossas lágrimas demorarão muito para secar. Já os cartazes de “desaparecida”, apenas alguns sobraram inteiros. Os demais se foram assim como tudo na vida que se vai… como nós, que um dia também fomos ou será que poderíamos ter sido. A mente já cansada me confunde às vezes e já não sei o que é hoje, ontem ou amanhã… Nem sei mais se a gente é verdade.
…
Ainda me lembro do dia em que você partiu, mudando-se pra tão longe. As crianças inseparáveis que corriam pela rua de terra, ignorando a presença do tempo, deixaram de existir ali, só restando um fragmento esquecível. Fragmento este que ficou guardado durante tanto tempo.
Anos depois ouvi notícias de que estava internada à beira da morte. Havia cortado os pulsos, num pedido de socorro, um clamor por algo ou alguém e eu não estava por perto.
E foi um pouco antes de saber desse acontecido, é que os sonhos começaram… Malditos pesadelos!
Que grosseria, nos tempos atuais, desejar pra alguém um bom dia! Violentar assim o direito do outro em se contentar com o que é pouco Querer para ele a alegria, que talvez, mesmo você não queria
E quem é gostaria?
Ter um verdadeiro bom dia, pra ficar relembrando e revisitando Fazendo de todos os outros, perca de tempo, esquecíveis Covardia essa, transferir para o semelhante essa carga tão sufocante Só pra satisfazer o teu ego… tão educado ego… tão invasivo ego
E quem não é egocêntrico, hoje em dia?
Tá se enganando e mentindo pra si mesmo. Que vergonha alheia! Se preocupar com o planeta, as plantas, os animais… e a gente? Onde é que fica a gente, nessa busca de completar os “bons dias” tão intransigentes? Até gostaria que fosse diferente, mas como seria plausível dizer que é. Quando?
Quando é que o dia de hoje, deveras seria um bom dia?
Tenho a esperança inocente de ser o amanhã, restando-me apenas sobreviver no silêncio, Ou na manifestação do meu protesto que lhe entrego toda manhã Desejando a você um grandíssimo “Bom dia!”