Público
Viajante
despir o novo
encontrar-se perdido
estrangeiro, desconhecido
viajar desafia
pula-se a muralha aramada
da rotina
cair outra vez no mistério
tatear de novo no escuro
prazer contra todas as moedas
faço minhas malas
digo adeus ao que fui
ao voltar não serei eu
pois onde vou me deixo
também trago novos ares
viajo para desentender
para sair do corpo
para colar penas
nestas asas famintas.
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Público
Festim
os dedos ávidos
tateiam o volume
descortinam a carne
a língua fala o desejo
lambendo o batom
a refeição está servida
de joelhos, ora à volúpia
entre quatro paredes
come o fruto proibido
os pequenos lábios escorrem
os grandes abocanham
idas e vindas vorazes
estalos úmidos
na boca melada o latejo
nascente do desejo
o monte erupciona
o prazer culmina
a polpa carmim
engole o viscoso
festim.
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Público
O Que Sou
sou os tombos que levei
as cicatrizes que deixaram
sou as vezes que errei
crendo ser coisa certa
sou todo dúvida, mente aberta
sou bicho, natureza e música
sou impulso, não me seguro
também inseguro e pierrot
quem sou? nem sei
mero civil dentro da lei
todo café que já tomei
e, nele, o poema que pensei
poeta do espontâneo
verso o que transpira
fenômeno cutâneo d'alma
sou a essência que inalei
e instalei na lembrança
sou o banco onde sentei
e neles aquilo que devaneei
sou caos e dilemas
os sonhos não realizados
insônias, preguiças, problemas
tanta coisa
nem cabe no poema
sou os pores do sol que admirei
toda lua cheia por qual enamorei
o choro, o riso, a raiva, o tédio, o gozo
montanha-russa
sou deslocado
não sou desta geração
sou pop, rock e blues
tenho medo
do mundo e da solidão
sou girassol em busca da luz.
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Público
A Carne
a carne é fraca
e me rendo
às tuas teias
hei de ser refeição
para teus lábios quentes
devora-me lento
confundem-se
as nossas pernas
emaranhadas
inundadas
suor e prazer
dane-se
hoje o mundo
é só eu e você.
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Público
[Crônica]
Apartamentos - Parte 01
Jorge gosta de contemplar a manhã através das grades da varanda de seu apartamento. Ele tem o hábito peculiar de pôr para tocar no celular sons passarinhais, apenas para ter na boca da lembrança o gosto doce de sua juventude interiorana. Sente falta dos pássaros enquanto ouve os cantos guturais dos carros. Ele tem muitas aves encarceradas dentro de si. As grades da sacada constantemente o lembram, de que o corpo pode estar retido mas a alma estará sempre em voo.
O maior temor de Clara: dar de cara com alguém no elevador. A pandemia plantou nela uma aversão à companhias em espaços de poucos metros quadrados e os frutos permanecem até hoje. Além disso, detesta ser obrigada a dar uma bom dia ou um sorriso qualquer (aquele tipo de obrigação que criamos para nós mesmos), quando na verdade está querendo se ver longe de quem quer que seja. Claro que ela sempre foi meio fechada para o convívio social, porém, quem tem a chave para adentrar em seu círculo limitado é amado incondicionalmente. Clara é como uma planta adaptada a um vaso, gosta de fincar raízes em espaços pequenos mas que sejam somente seus.
Ela é como um planeta que orbita distante do sol, mas que sem a sua gravidade morreria, ninguém vive sem sol. O sol de Clara é café, livros e alguns poucos amigos.
Um fato científico é que tudo tende a manter o movimento até que algo se oponha a ele, até que alguma força o freie. Fernando segue à risca esse mandamento, acorda todos os dias muito cedo e, em jejum, desce do 402 para a rua a fim de iniciar a sua corrida matinal, ou seria crepuscular? Muitas vezes a manhã ainda está limpando as remelas dos olhos e adiantando o alarme da soneca, enquanto Fernando queima suas calorias. Certo dia, inventou de correr na chuva. Como resultado, foi contemplado com 40ºC de febre e teve que parar no hospital. A vida sempre impõe um freio quando ultrapassamos a velocidade permitida.
(Continua...)
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Público
a praia tem o olor de vidas passadas
alga e casca e escama com pitadas de sal
o espirro azedo das ondas flutua
um cheiro de azul, branco e sol
uma paz violenta a invadir a narina
sobe o vapor no fervilhar de espumas
vai-se o amargo, o ferroso
aquele sal passado do ponto adocica
aquele caldeirão sem fim
mexe comigo.
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