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Hoje eu estou Saturno
sem dúvida ou sombra
sou épico e soberbo
gramático e astuto
tenho em mim todos
os voos do mundo
e aterrizo no teu colo
teu Apolo
sorria com teus dentes
de estrela
viva com tua sorte
de Vênus
hoje eu tenho anéis
sem medo
teu Eros
teus erros
Edu Liguori
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Olá minha cara amiga
a quanto tempo não lhe vejo
andei por aí a tentar preencher
espaços vazios
acabei por te negligenciar
estava ocupado entre caminhos
percorri algumas trilhas novas
sem sucesso
acho que morri
mas o vidro ainda embaça
com minha sôfrega respiração
estou vivo
entre um cigarro e outro
depois de vários tragos quentes
voltei ao lugar em que estava
talvez mais sábio, ou não
me pergunto o que me falta
e abunda o silêncio
nem rezar rezo mais
perdi a fé
dos tropeços e prazeres
tudo abstrato e obscuro
sou ninguém em mim mesmo
enxerto de nada em pele humana
pois é minha amiga
voltei para ti
para não estar tão só
em tuas letras me aconchego
Edu Liguori
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Enquanto você está aí
no seu canto aceitando
tudo que aconteceu
o mundo sente tua falta
sem você falta luz
sem você faltam sorrisos
sem você falta alegria
sem você faltam amores
enquanto você não percebe
que ninguém tem o direito
de te anular assim
o mundo chora
sem você não há revolução
sem você não há poesia
sem você não há música
sem você não há salvação!
Edu Liguori
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Ah metrópole agoniada
grita, buzina e ferve em panelaço!
Ruas que invadidas revelam
todos os abandonados
Ah pauliceia desvairada
sujeira, poeira e fumaça!
No crack e na cachaça amarelam
todos os acovardados
Ah locomotiva descarrilada
revolta tua gente e tua praça!
Retira daqueles que só exploram
todos os níqueis roubados
Ah São Paulo deslumbrada
inunda tua pátria e tua farsa!
Expele a verdade dos que namoram
todos os capitais surrupiados
Ah selva de pedra perfumada
acolhe teu povo em teu regaço!
Volta a garoa dos que acreditam
que por ti foram sim adotados
Edu Liguori
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Malkovich embarcou em Paris
o trem tinha a direção de Moscou
Malkovich fez o que sempre quis
largou tudo e enfim viajou
Ao chegar na fria capital moscovita
Nastassja em sua cabine embarcou
o Trem Transiberiano inconteste apita
e o sonho de uma viagem longa começou:
Malkovich se encantou
com os olhos e cabelos escuros
de Nastassja que timidamente sorriu
sem delongas ele se apresentou
Malkovich, lhe amava contar histórias
Nastassja curiosamente deliciava-se ouvi-las
Por muitos dias e noites
quilômetros sem fim
ele cantava em prosa uma vida rica
com momentos de glória
e derrotas comuns
ela acenava, sorria ou franzia
e adjetivos apontava
que belo!
que singelo!
que triste!
que peste!
assim a Europa se foi
e a Ásia surgiu
os montes, estepes, tundras
o que fosse
decoravam as janelas
mas ele só tinha
olhos nela
e ela ouvidos nele
o Trem Transiberiano
apitava inocente
e não era consciente
do encantamento que havia
na cabine sessenta e seis
onde Malkovich se apaixonou
e Nastassja o beijou
em Vladivostok
viveram os últimos anos
de Malkovich
tiveram bons e maus momentos
sobreviveram felizes
aos doces tormentos
ela o ouvia e agora corrigia
ele a respeitava e aprendia
um romance burlesco
improvável
imprevisível
mas quem poderá dizer
as razões quentes que vem do coração
nos caminhos frios siberianos
Nastassja se lembra de Malkovich
com carinho
não se arrepende
nem um pouquinho
de ter naquele dia
embarcado em Moscou
sem saber que havia
na cabine sessenta e seis
o homem que queria
Malkovich
o contador de histórias
Edu Liguori
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O relógio é uma réplica
mas tem esse jeitão do passado
sem ponteiro de segundos
traços fortes
moldura cor de madeira velha
um rachado colado
que lhe permite um ar histórico
os ponteiros rebuscados
movem-se quase imperceptíveis
contando o tempo
é falso brilhante
movido a pilha
não faz tic-tac
mas todas as noites
sobre minha cabeça
às costas
vai registrando
minha respiração
os suspiros
a fumaça dos cigarros
calado
ouve Nat King Cole
Miles Davis
Billie Holiday
não demonstra sentimento
segue impávido
não teme o futuro
não chora
auréola do espírito
que me toma
todas as noites
em que te espero
Edu Liguori
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Os poetas as vezes enxergam anjos
com cachos dourados mas sem asas
adoram, amam, glorificam
mas são apenas lembranças
de que cada estrofe
reflete o sol do norte e seu calor
musas jovens e inspiração
pra viver mais um novo verão
então o poeta deita a tinta
em papel, papiro ou no chão
pra cantar a beleza mais pura
e a loucura da paixão
paixão dos sonhos
dos rios e mares verdes
dos olhos que brilham e encantam
ah os poetas
imaginam um mundo
onde havia apenas um simples sorriso
em mesquitas e igrejas
cantam fiéis pelos seus anjos
afinal crentes ou não
todos nós temos sonhos
Edu Liguori
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Com o palco vazio
ela entrou silenciosa
rodopiou suavemente
olhou para os lados
procurou segredos
ocupou o espaço sem alarde
movimentos precisos
leve e flutuando no ar
foi ampliando sua presença cênica
mostrava seu talento, delicadeza
o olhar calmo
o sorriso aberto
os cabelos brilhando
a bailarina chegou
(ele sorriu sem que ela visse)
os braços ritmados
as pernas alongadas
os pés precisos
(encanto)
ela estava apenas se aquecendo
no silêncio do teatro ainda fechado
(mas no fundo sentia sua presença)
nesse balé enfeitiçado
cisnes negros e brancos
se encontram e descobrem
seus medos, seus amores
(ele está lá, mais perto do que ela pensa)
Edu Liguori
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À boca o velho amigo que o mata devagar
sob a fumaça e os encantos da droga diária
vence o silêncio em tragadas profundas
o cinzeiro sujo é como relógio, marca as horas
pode ouvir o estalar das folhas queimadas
exala pelo nariz nuvens embaçadas de confusão
a visão da corrente de ar atravessa os óculos
pensamentos vem e vão desordenados
bate o bastão para colher as cinzas mortas
ritual sem sentido que acolhe seu vazio
enquanto escreve sua existência
se aproxima mais de seu fim
onde está o isqueiro?
mais um capítulo
um novo processo velho
repetido angustiado
traga a vida pela boca
entre os dentes amarelados
corrói os pulmões e preenche os espaços
assim passa o tempo
que o detém ou que convém
vício antigo do homem
que não se incomoda
com a longevidade
vive apenas das baforadas
que exalam sua ausência
e marcam o sofá com queimaduras
os dedos com nicotina
as unhas com o rancor
de uma dor desconhecida
fumou aquela vida
como se fosse a última
Edu LIguori
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