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Tem um zumzum
aqui no peito que não me deixa
não é assim uma dor nem uma queixa
é só esse maldito zum zum zum zum zum
um ruído estranho, surdo, mas não é novo
ele vem de vez em quando, quando ele vem
é tipo moeda velha, cruzeiro, cruzado, vintém
vale mais nada, mas tá sempre vindo aqui, de novo
enquanto respiro, penso e solto um suspiro longo e fundo
as vistas então marejam, embaça a visão, os olhos já cansados
é como uma leseira sem idade, coisa típica dos poetas aparvalhados
o verso vai crescendo, saindo sem muito conteúdo nada muito profundo
só um zumzum
mais um
Edu Liguori
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Que tempestades vivi
nesse universo infinito
que os tempos me opuseram
recolhi velas, fiquei a deriva
chorei lágrimas salgadas
por tantas noites incertas
descobri o sabor da solidão
o encontro do eu que nem
conhecia em mim
desafiei as grandes ondas
e a maresia fria que corroía
pele e ossos desestruturados
bússola girando em descompasso
os sentidos confusos
sem referência no horizonte
mas bravo por ser tão covarde
e não ter para onde escapar
deixei o vento soprar
entre correntezas continentais
desertos de águas escuras
senti o humano em mim
em farrapos os tecidos rotos
me desnudaram aos poucos
a alma esfacelada ainda viva
febres, calafrios, gemidos
os gritos de Netuno
e meu suor de sangue
meio século navegando
as incertezas e asperezas
da procura pelo nada
foram assim os piores
momentos e grandes
lamentos que escrevi
não nego que pela escotilha
cheguei a ver o sol
reluzente estelar
sempre soube de sua
existência e poder
sobre meu pulsar
mas como foram
confusos estes momentos
e me via ainda capitular
voei com as gaivotas
beijei alguns arco-iris
tive raras noites tranquilas
mas não havia em mim
a completude, a essência
o desapego
nada poderia me fazer
maior
era minúsculo em si
mas toda viagem
real ou fantasia
tem um fim
neste ancoradouro
que agora cheguei
me vi no espelho
finalmente!
me reconheci
tempestades
agora tem outro significado
não são mais meus pesadelos e medos
ao me encontrar
abri uma porta que desconhecia
sei que estou pronto
senhor de si
deixo atrás o marujo
independente
ergo as velas e miro o firmamento
sou eu senhor
sou eu capitão
vejo agora novas cores
abraço o ar com renovadas forças
navego sem mais receio
enfim formado
assim construído
meu barco hoje é um forte
(meu corpo fortaleza)
e então você pôde chegar
pois agora o outro
não me faz complemento
não necessita pagar
não está aqui para me curar
a cor do mar
está em seus olhos
somos encontro de oceanos
não nos necessitamos
não nos dependemos
apenas vivemos
juntos a fazer amar
Edu Liguori
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Dia Nacional da Visibilidade Trans
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Lhe envolvo
com todas as coisas desconhecidas
que não são
e por não serem
mal não fazem
aproveite esse mistério
olhe meu olho sério
e o outro sorrindo
pra ti meu remédio
Edu Liguori
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Foi com o riso solto
que ela me prendeu
fiz tudo
fui tudo
me joguei
o rio correu solto
até o mar e se perdeu
dei tudo
contudo
me afoguei
Edu Liguori
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Afundou em meio a seca do planalto
no asfalto negro a cinquenta e cinco graus
mergulhou a face na aspereza do piche entre pedras
sentiu a carne rasgar e o ranger dos ossos
A dor do tombo que leva todos ao martírio
dos sentimentos feridos e vilipendiados
um precipício próximo e nada incomum
era mais um a se ver vítima do concreto
Sem mais perspectivas ou ilusões chorou
na miragem da vida urbana e cívica
um dia sonhou com uma realidade possível
acreditou que entre os veículos havia um caminho
Morreu sozinho no tráfego dos corpos e almas
que se digladiam egoísmos e incompreensões
não há amor na metrópole cinza dos homens e mulheres
que são incapazes de aceitar, permitir e perdoar
Edu Liguori
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A rua virou um rio
corre água escura da chuva
um verão longo e triste
inundado de ausências
sem choro
observo a correnteza
sobre o asfalto a sujeira
carregada além
não mais lamento
estou parado na varanda
de uma vida sem sal do mar
sem brilho, sem sabor, sem cor
a rua virou um rio
que trocou o oceano pelos bueiros
que trocou o bolero pelo silêncio
sem choro, sem samba, sem música
uma vida que finda
e não tenho mais esperança
ela não dança
ela não vem
Edu Liguori
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Naquele mundo distópico
não havia amor passado
ninguém queria, ninguém sentia
amor virou instante
nada mais é filantrópico
sem o corpo amassado
nada mais intenso havia
morreu o tal romance
eles já não se encontram
a faísca é então digital
signos, pura semiótica
momentos de compreensão
no gozo solitário se concentram
perdeu-se o instinto animal
relação simples simbiótica
alívio sem rompantes de paixão
tudo em nome do medo
o receio de por fim viver
sempre é muito cedo
para deixar acontecer
evitam assim cicatrizes
não reproduzem emoções
atores e atrizes
elaboradas interpretações
não há mais amor
já temos outras dores
uma vida sem humor
muitas telas e computadores
a poesia tenta e resiste
com seu pedido desesperado
provoca e ainda insiste
em busca do último enamorado
Edu Liguori
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O único poema que me vem hoje a mente
ainda não foi escrito, fala do amor que não veio
e por isso a mão dormente não escreve, não sente
só imagino a hipótese de calado me aninhar em teu seio
sei que não há um sonho mais doce do que o que cometi
te cantei cem fábulas e me apaixonei deveras por ti
enfim reflito pausadamente sobre quão doce foi tua verdade
que mesmo ao dizer não, depositou carinho e realidade
esse poema desconhecido, jamais celebrado ou rimado
ficará para a história obscuro e não será lido ou amado
ele conta sem dizer nada a aventura deste poeta que ousou
conquistar sua amada pedindo que ela fosse livre (e ela voou)
Edu Liguori
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Quero te comer feito rapadura
quebra-queixo, gostosura
lamber os beiços babados
estremados, desleixados
ser teu carma, teu ódio, teu amor
arma dura, sódio, teu calor
quero te saborear feito líquido
sorver e beber todo teu fluido
suco de manga, maçã e pêssego
botar fim no teu último sossego
comer tua alma, tua paz, tua flor
consumir e exterminar tua dor
ser homem, ser mago, ser paixão
tu mulher, colher, minha mão
nessa loucura incontida e safada
minha fada, nossa foda, uma estrada
dou um trago, te estrago e sorrio
tu rebolas, gargalhas o que sentiu
um par ímpar de tão incomum
sertão, mar, camarão e jerimum
enquanto começo a te navegar
venha com fé e força delirar
não há nada que se possa perder
quebra-queixo, deixo, entreter
Edu Liguori
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