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#Desafio 201
ENTRELINHAS
no Dia do Escritor
Entra sem bater.
Senta à mesa do meu pudor
e o despe,
em deguste lento.
O silêncio acende a luz baixa.
A respiração escreve o prólogo
nos vãos do meu pescoço.
Nu,
carrega o charme sujo de quem
esqueceu o nome do pecado,
mas nunca o gosto.
Um piano
oferece suas teclas
como costas arqueadas.
Música que só se ouve
com os dedos
e os dentes.
As mãos tropeçam de propósito.
Acham rendas
onde nem há tecido.
Abrem meus segredos
com a leveza lasciva
de quem já não acredita
na pureza da palavra.
Entre o susto e a entrega,
tremo.
O poema sobe pelo ventre,
arrepio que lembra meu nome
e o esquece depois,
na rima da nuca.
Desce suave,
outra vez,
pelas linhas que a gramática
evita.
Ele
(ou talvez eu)
encaixa vírgulas com o quadril,
abre parênteses com as coxas,
encerra sentenças
com reticências na língua.
Não permite ponto final.
E há um verbo que nos une,
no presente mais que urgente
da pele.
Só os amantes percebem.
Somos só gerúndio:
ainda,
acontecendo,
desfazendo-nos.
Sempre.
Mais que corpo.
Mais que sonho.
Para além ,
muito além,
do amor.
Crs Ribeiro
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#Desafio 200
O Que a Boca Poupa
Colo.
Ninho.
Manta.
Abrigo costurado na pele.
Silêncio morno
na brisa que lambe a tarde,
com cheiro antigo de pão.
Véu.
Intuição.
Lampejo.
Espelho torto
do qual não fujo.
Baralho cigano sobre a mesa
um papo profano, desvendando
o que em mim é segredo
e sal.
Raiz.
Porto.
Bússola.
Presença
que ancora a queda.
Promessas ditas com os olhos.
E nos olhos,o que a boca poupa:
a verdade crua
da intenção
que não
mente.
Lume.
Entrega.
Vertigem.
Suspiros roucos
que acordam a pele,
que lembram o caminho
da sede mais doce
de ser feliz,
outra vez.
Seiva.
Pulso.
Sangue.
Respiro que arromba o peito.
Tambor que bate sem cerimônia
na primavera teimosa
de renascer
em você.
Mesmo fora de tempo.
Mesmo fora de estação.
Mesmo assim.
Crs Ribeiro
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#Desafio 199
Fim de Julho, com Junho na Boca
O mês vai indo,
de mansinho,
pro fim.
Bamboleia a sanfona,
a fogueira
esfumaça,
e o clarim
fica assim:
solto
de mim.
Debanda a quadrilha,
mas tu
não te vais:
teu cheiro ficou
no cangote,
rapaz.
Amendoim
(ô trem bão),
que feitiço…
me cutuca,
me abraça,
me atiça,
me enlaça.
É cheiro no vento,
capricho,
artifício.
Contorço a lembrança,
ela é o meu vício.
Paçoca de afeto
no pilão da vontade:
doce, danado,
delícia…
saudade!
Será que só vens
quando tem balão?
Depois te despedes,
igual
São João?
Se for só calor,
me deixa
queimar.
Mas se for você…
ô,
vem
temperar
com esse teu gosto,
moço,
difícil explicar…
sabor de paixão,
vou
te
mastigar.
E se tu vens,
vem inteiro,
não te percas
em desvio.
Que o amor,
quando é brasa,
vira
fogo
no
cio.
樂
Crs Ribeiro
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#Desafio 198
Entre a ordem e o caos:
um corpo que respira.
A mente não cala.
Sussurra.
Açoita.
Cada enigma,
um corte preciso,
um fio tardio:
ferida.
A lógica dobra,
se redobra,
a vida é partida
que se desdobra.
Ela no meio,
pedaço alheio,
impulso,
anseio.
Não espera resposta:
é luz,
é serpente.
No silêncio,
o grito que ninguém quer ouvir.
Na curva do tempo,
aprendeu o lamento,
fugiu do tormento.
Bailou no furacão.
Crs Ribeiro
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#Desafio 197
Saudade
não é silêncio,
é grito abafado,
voz que se dobra,
mas não se apaga.
Transfigura.
É luz que resiste,
rastro quente no piso frio,
eco com cheiro de pelo
e manhã.
Farol aceso
no escuro da ternura.
Tomou o caminho das estrelas,
mas deixou o afeto
pendurado nos cantos,
nos vãos,
nos horários de sempre.
Fez da gravidade um abraço,
um círculo tonto
de candura.
Lua.
Luna.
Lunática.
Meu pedaço de céu em patas.
Tua sombra doce
ainda dorme no tapete,
mas teu rabinho mensageiro…
calou.
E o que antes era festa no portão
agora é vácuo,
um silêncio com nome.
Não ouviremos mais
os passos desajeitados,
nem sentiremos o sopro quente
que dizia,
sem palavras:
“tô aqui.”
Não foste feita pra dor.
Foste centelha.
Foste lume.
Foste vida desmedida
em forma de amor.
Viraste constelação.
Fiel vigia.
E hoje brilhas, serena,
no céu exato
da melancolia.
Crs Ribeiro
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#Desafio 196
Olhos verdes
Olhos verdes,
mistério líquido.
Floresta olhando ao redor:
silenciosa,
ofegante,
vestida de segredos.
Neblina de cachoeira,
véu que esconde o abismo
e embala quedas
com dedos suaves.
O que há por trás?
Talvez um grito contido.
Talvez um jardim ferido.
Medo?
Dor?
Amor, sei que há ali…
Profundo, intacto,
nascente que insiste em brotar
entre
rochas
que sangram.
E no poço do seu olhar,
não há retorno.
Só entrega.
Quem entra,
sai outro.
Ou
não sai.
Crs Ribeiro
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#Desafio 195
Desalinhados
Sentiam-se
vozes fora do coro,
com compasso próprio,
existindo além do ritmo.
Marginais da criação,
sussurros
num mundo
gritando
padrões.
E numa dessas
sinfonias tortas da vida,
se esbarraram
na mesma frequência.
O desafino
(que surpresa)
encantou.
A entropia
se fez fértil.
O sentimento,
inevitável,
brotou.
Intenso,
como só os divergentes sabem ser:
sem lógica,
sem razão,
sem rédeas,
sem medo.
Tornaram-se
a ferida mais bonita
no tecido liso
da ordem.
Daquelas que
ardem com gosto,
se tatuam no peito,
se orgulham na pele.
E, sem pedir licença,
se nomeiam de amor.
Crs Ribeiro
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#Desafio 194
Lápide
Desejo industrializado,
fabricado,
condicionado.
Peles lisas,
músculos saltados,
bocas amplas:
não sabem falar, não.
Cabelos muito lisos,
loiros.
Costelas retiradas,
gorduras aspiradas.
Corpos perfeitos:
insatisfeitos.
Calmantes, estimulantes.
Whey, Monjaro, Ozempic:
depressão, pânico,
suicídio.
Quem são esses,
meus irmãos?
Afastam-se da essência,
não toleram a diferença,
dedos que apontam,
braços que não acolhem.
Vivemos assim
na eterna exposição
da Felicidade que não existe.
Um pano de brilho
sobre o buraco escuro
que devora a alma
de cada um.
E quando já não há corpo
pra sacrificar,
vendem o silêncio.
Decoram o caixão,
Põem o figurino do luto
uma última
encenação.
Crs Ribeiro
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