Despojada de máscaras, desvendo o que sou: mais que pele, mais que forma, um vestígio de voos interrompidos.
Meus temores, pedaços sem simetria, espalhados na mesa. E você, artesão de sentidos, molda a fragilidade em beleza; faz das fendas um mosaico, vê poesia na minha dor.
Faz-me força quando sou cinzas, faz-me mulher, quando sou apenas eco. Torna-me sua sem roubar o que é meu.
É desejo que arde, mas não só na carne: é labareda que acende a alma no mistério que nos circunda.
Quero mais que seu corpo, quero seus pensamentos, suas rotas sem mapa e as esquinas de silêncio. Quero o que desconheço: a imensidão em você.
Mas, acima de tudo, quero o que somos desatados do mundo. Quando a solidão nos cobre… e o amor nos despe.
Tua boca me diz; e eu extasiada a ouvir: tanta paixão! Quase me desfaço… Uma carícia, e já não estou mais aqui. No chão, talvez, ou dentro de ti.
Tua boca me lê, como quem decifra segredos. Abençoa minha pele, desfaz as bordas do que eu era. Amolece. Me toma, me engole inteira!
Tua boca abre mundos que eu nunca soube querer: arde, umedece; se alimenta do meu gozo, bebe de mim até nada restar.
Tua boca, agora, já nada diz. Esgota a língua, muda, alucinada.
Então falo em braille, toco-te no vazio do entendimento e, juntos, respiramos palavras não ditas. Somos febre, fome que não cessa; pira que não se apaga.
Expresse o seu coração! Coloque o rosto na janela, deixe o vento bater ligeiro como se te realinhasse por dentro.
Suba ao topo do prédio, de uma ideia ou de uma certeza e grite o que há em você: esse tumulto bonito, essa estranheza boa; esse susto de sentir demais em um mundo que faz tudo para não sentir…
Volte a ser criança, quando chorar era resposta e demonstrar era um gesto, não um risco. Entenderão? Não se iluda: nem todos, nem sempre. Poucos sabem traduzir corações que sangram poesias.
O que diz possui intenção, mas é o que escutam? Ah, é um reflexo turvo: são ecos das próprias dores, e cores das próprias feridas. Cada ouvido uma dureza, cada olhar sua miopia.
A pintura do mundo interior tinge o tom da percepção, que nunca é exato, nunca é literal. Nem tudo se sabe, afinal.
Então, cuide do que diz, mas não se prenda à leitura alheia. Entrega sua verdade ao vento e deixa que ele a leve livre como semente.
Estreia lembra leveza, alegria e boas expectativas e, para começar com o pé direito nesta plataforma, nada melhor que um belo poema da mente incrível do Rejo Naldo @rejoverso! Assistam! Garanto que a decepção ficará só no tema da poesia…