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@Cilene

CILENE RESENDE
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@Cilene
há 2 semanas
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Meu avô sempre dizia que o ano começa no primeiro surdo. Foi ele quem me ensinou a amar o carnaval e suas ruas abarrotadas de risos.

Durante anos, dancei com uma flor presa no peito, que tinha nome e perfume. Era a porta-bandeira do meu exagero.

Este ano eu fui de abelha sem flor.

O luto perpassado de amarelo berrante, asas de plástico, ferrão improvisado com cartolina, zumbindo pelas esquinas,
cantando marchinha:

“Ô jardineiro, prepara o canteiro,
que o meu amor anda sumido no meio do cheiro!”

Nos primeiros dias eu procurava a flor.
Entre serpentinas e confetes grudados no suor, imaginava que ela podia brotar
de trás de qualquer máscara.

Beijei uma Dália elétrica,
toda pintada de glitter azul,
que falava alto e ria com a cabeça jogada para trás.

Passei a madrugada com uma Orquídea
delicada só na aparência,
que sabia o nome das próprias pétalas
e não tinha medo de desabrochar na cama improvisada do hotel barato.

Teve também uma Margarida distraída,
que me ensinou que arrancar pétalas
é um jeito antigo demais de decidir.

Mas as flores me pareciam tão murchas.
Talvez por excesso de sol,
talvez por excesso de mim.

E, ainda assim,
em algum momento entre um bloco e outro, percebi que estava feliz porque o meu corpo, finalmente,
parava de perguntar onde estava a flor
e começava a perguntar onde eu estava.

O carnaval acabou.
Saí sem asas.
Foi estranho como o silêncio depois do último tambor.

Se fosse marchinha, seria assim:

“Abelha sem colmeia
Voando em torno de mim
quem perde a primavera
descobre que também é jardim.”

——————————————
Cilene Resende
@seria.uma.sereia
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@Cilene
há 3 meses
Público
Querido Papai Noel

querido Papai Noel
eu sei que a escola pediu para a gente escolher um presente
podia ser boneca
cozinha de plástico
ou aquelas coisas de menina que todo adulto fala sorrindo
como se eu tivesse prometido alguma coisa pra eles
antes mesmo de nascer

mas eu queria mesmo
era virar super-herói

não de capa (acho que engancha nas quinas da mesa)
não de salto alto (minha tia disse que toda mulher precisa aprender)
não de sorriso paciente
que aguenta tudo
igual vi minha mãe engolir ontem
quando o mundo dela caiu dentro de uma pia cheia de louça

eu queria poder salvar gente
inclusive eu

não quero casar cedo
nem carregar bebês antes de carregar meus próprios sonhos
não quero limpar o chão dos outros
enquanto sujam o meu nome
nem quero ser chamada de exagerada
quando disser que dói

querido papai noel
sei que isso talvez não caiba no trenó
me disseram que menina nasce sabendo cuidar
mas eu só sei correr rápido
e pensar coisas enormes
e sentir um fogo bonito no peito
quando imagino que posso voar para longe
de tudo o que querem que eu seja

se não der pra me dar superpoderes
pode me mandar só uma coisa então:
um amanhã
onde ninguém diga
que eu nasci errada

porque eu juro
papai noel
eu juro que só queria sentir a espada cortando o braço peludo
que tentou passar a mão na minha bunda no dia do meu aniversário

eu juro que eu só queria salvar o mundo
antes que o mundo
me engula.
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@Cilene
há 5 meses
Público
Gol Contra

Comecei cedo a faxina
decidida a pôr ordem em tudo:
no armário, nos papéis, nas fotografias, na poeira dos cantos,
no chão do quarto.
Uma mancha vermelha escorria do assoalho em um pulso próprio.

Fiquei do joelhos e contra-atacamos - éramos um time: eu e o balde, água e sabão.
Esfreguei até os nós dos dedos arderem.
O líquido pegajoso sumia, mas logo voltava - mais vivo, mais escuro.
Substituí os jogadores. Tentamos desinfetante, vinagre, álcool de posto que usava para limpar os espelhos.
A cada produto, um breve alívio: o horizonte de uma superfície inócua.
Porém, bastava levantar os joelhos e o líquido retornava, insistente, zombando de mim.

Exausta, chorei sobre aquele chão.
Minhas lágrimas mal se misturaram ao vermelho plasmático.
A mancha não desistia.
Meu time sucumbiu.
Eu, ali, ajoelhada em prece há horas e a mancha cuspia de volta o que eu tentava apagar.

Deixei-a. Deitei naquele chão, quem sabe se ignorar, ela vai embora.
O vermelho, no entanto, escorreu-se rapidamente para todos os cômodos.
A mancha estava vencendo, ela me afogaria contente, ali, sem memória de minha posição fetal.

Um jogador que assistia do banco, me ativou uma ideia - completamente desesperada, alucinada, uma última tentativa: um acendedor de velas quebrado na minha cômoda. Convoquei novamente o álcool - definitivamente não era uma partida normal, dava pra substituir as tentativas quantas vezes eu aguentasse.
Molhamos a cortina, os lençóis da cama, o abajur, o pufe de crochê feito pela minha bisavó… eu e meu jogador que, esgotado, pediu pra sair.
Ah! Mas tinha ainda meia garrafa de Vodka, que não dei conta na noite passada. Substituição! Absolutamente para a sala. Taquei, também, o Gim na cozinha.
Obrigada meninos, vocês jogaram muito bem!

A torcida na minha cabeça gritava o nome dele. Era chegada sua hora. Já estava fora da gaveta, no aquecimento, sobre a pia. Acompanhei-o até a porta, na beira do campo. Enquanto ele alongava a cabeça, orientei: “vai com tudo, artilheiro”. Risquei o fósforo.

O fogo subiu em espirais, queimando madeira, paredes, cortinas, lembranças — queimando também a esperança.

Do lado de fora, os vizinhos viam apenas uma casa em chamas. Por dentro, era o meu coração que ardia, e, infelizmente, ainda escorria em meus seios, incapaz de se limpar, condenado a sangrar para sempre. Perdi outra vez.
——————————————
Cilene Resende
@seria.uma.sereia
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@Cilene
há 7 meses
Público
Rotina

todo dia acordava, tomava café, amarrava o cabelo, calçava o tênis, passava pelo mesmo portão que rangia
arrancava uma florzinha azul da trepadeira que disfarçava o muro descascado, cumprimentava o senhor do chapéu que nunca responde
e seguia para o parque

bom dia, dormiu bem?
quais são os planos para hoje?
vai dar certo. Já deu
to com saudade
te amo

amava esse caminho
ele era só meu, ninguém sabia
eu era só dele, ninguém sabia

mas um dia a rua estava fechada
placa amarela, fita vermelha, nenhum caminho
e o amor não soube para onde ir
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@Cilene
há 8 meses
Público
Desequilíbrio

danças como quem teme o chão
ainda que flertes com o abismo
enquanto giro no compasso de um peito exposto,
com a pele pronta
com o ventre disposto à vertigem
dois pra lá e dois pra cá,

quente,
úmida,
úmida,
quente,

como febre suando meu corpo conduzido pela sua mão
coletora de gotas que percorrem o escorregador de minha coluna
arrepios com o som do ritmo secreto do nosso beijo
aflora o desejo de uma coreografia antiga

gemes,
no entanto, hesitas
hesitas,
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@Cilene
há 8 meses
Público
Desequilíbrio

danças como quem teme o chão
ainda que flertes com o abismo
enquanto giro no compasso de um peito exposto,
com a pele pronta
com o ventre disposto à vertigem
dois pra lá e dois pra cá,

quente,
úmida,
úmida,
quente,

como febre suando meu corpo conduzido pela sua mão coletora de gotas que percorrem o escorregador de minha coluna
arrepio com o som do ritmo secreto do nosso beijo
aflora o desejo de uma coreografia antiga

gemes,
no entanto, hesitas
hesitas,
no entanto, gemes

seria o carma da bailarina, confiar sua vida a quem não sabe dançar?
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@Cilene
há 8 meses
Público
À Distância de um Olhar

Ela tocou a taça no queixo porque precisava do toque. O vinho tingia o cristal como um presságio. Os olhos dele, mesmo do outro lado da tela, tiravam suas roupas com mais precisão do que mãos ousadas.
“Você sempre me põe alguma vontade”, ele dissera.
“Qual a de hoje?”, ela provocara, já imaginando que leria uma boa resposta no calor que subia pelas coxas.

A mensagem chegou como um sussurro que atravessava o vidro:
“Começa com mergulhar os dedos na tua taça, depois na tua boca, te olhando os olhos de muito perto.”

Ela sentiu a boca se entreabrir, não pela surpresa, mas pela antecipação. O dedo úmido do vinho poderia ter sido dele, roçando seu lábio inferior, empurrando devagar para dentro, como quem oferece um segredo para ser guardado entre dentes e saliva.

“Essa carinha de reação é bem como pensei a sua boca mesmo”, ele completou.

Ela respondeu com um “hmmmm”, mas seu corpo inteiro falava outras línguas, outras urgências.

E então ele afundou mais fundo nas palavras:
“Se viesse um gemidinho assim, iriam também outros dois dedos na tua boceta, sem tirar os da tua boca e ainda te olhando os olhos de muito perto.”

A cena se desenhava perfeita em sua mente — os olhos fixos, os dedos orquestrando uma dança entre lábios e carne pulsante. Ela respondeu com um arrepio e uma confissão:
“que cena perfeita.”

E ele seguiu, sabendo que já não havia como parar e nem queria recuar:
“Os dedos todos e os olhos todos continuariam, até você gozar. Sem outro toque, sem mais proximidade do que estar perto, te olhando e tocando a boca e a boceta por dentro.”

Ela adorou a maldade dessa ideia, mas desafiou:
“Será que consegue? Ficar longe?”

“Consigo”, ele disse.
“A visão do teu corpo a essa curta distância e os teus movimentos… Eu seria capaz de te olhar assim muito tempo. Mas nem acho que seria preciso tanto tempo até você gozar.”

“Não, não seria”, ela admitiu mais rapidamente do que deveria.

E ele concluiu como quem sela um feitiço:
“O movimento do teu quadril, bicando nos meus dedos. Aqui, só a construção da cena me põe vontade de um gozo. Imaginar também o teu corpo ao ler, aumenta minha vontade.”

Ela fechou os olhos, imaginou o tamanho e a dureza da vontade, sendo empurrada para dentro de si.

E isso arruinou qualquer chance de um minuto a mais. Gozou com força e vazio. Sem vergonha e sem pele. Ali mesmo, entre letras, vinho e desejo teleguiado.
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@Cilene
há 8 meses
Público
Isso Aqui Meu Senhor é uma Carta ao Amor

Na dobra de um lençol revirado;
3h23 da manhã

Querido Amor,

te escrevo com as mãos frias
e o coração - que te dei - em minhas mãos
(ainda batendo)

às vezes acho que é por você
às vezes acho que é apesar de você

te nomeio querido, porque não sei como se saúda o Amor
e, como se presenteia o Amor?
com flores?
com um olhar em silêncio no ponto do ônibus?
seria com o susto de reconhecer a si mesma em outro corpo?
em outra risada?
em outro abandono?

oi, amor
oi
seria isso?
um aceno?
uma vertigem?
um poema escrito errado?

o seu corpo, Amor
é morno e confuso
é a cama quando ainda tem o cheiro dele
é o braço que aperta quando você diz que vai embora
é o eco de uma risada no caminho do teatro
no dia que você esqueceu de trancar a tristeza do lado de fora

e quando você falta
é como se todo o oxigênio do mundo tivesse voltado pra estrela que pariu isso tudo
a gente ofega, ofende, reza
a gente jura que não vai mais
e vai
e volta
e sangra

sei pouco sobre você
sei que
“um dia” é a sentença da esperança
uma quimera cruel e fria disfarçada de motricidade
e quem diria que “um dia” eu ainda iria a este amor
e que, sem expectativas, um sorriso me atravessaria, surpreendendo meus lábios já tão secos de utopia
agora, tão desprovidos de dignidade

você me quebrou, Amor
me reescreveu sem avisar que ia mudar o enredo
me ensinou que
ninguém ama impunemente,
que o peito é casa mas também é escombro

mesmo assim
mesmo assim
mesmo assim
e talvez só por isso

não sei viver sem você
e essa é a mais triste das verdades
a mais bonita também

sem você eu como
mas não me alimento
respiro
mas não suspiro
ando
mas não chego

você Amor, é incêndio e nascente
é ausência e altar

e eu… sou
essa mulher com olhos cheios de água
pedindo outra vez
para ser acolhida nos seus braços
mesmo sabendo que
você às vezes também não sabe abraçar

nesse dia dos namorados,
te escrevo com tudo que restou
e tudo que falta

Sua sempre,

Sereia
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@Cilene
há 9 meses
Público
e se for agora?
(em memória das coragens suaves)

a vida
esse fio fino que a gente insiste em vestir
como se fosse manto eterno
anda curta
mas cabe nela um amor inteiro
se a gente deixar

ele espera no ponto exato
em que o medo vira saudade antecipada
com uma mala leve,
cheia de vontades:
de amar sem freio,
de errar bonito,
de rir alto,
de viver junto como quem constrói abrigo em dia de tempestade

ninguém promete o sempre
mas, se for com você,
quero o agora
porque o agora, com você,
já é mil vidas
com gosto de recomeço

vem
vamos ser a chance que quase ninguém tem
de fazer o tempo valer
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@Cilene
há 9 meses
Público
Assassina

Matei noventa e nove

Com mãos firmes, olhos marejados,
degolei futuros como quem corta flores lindas demais para durar
Feita de carne e dilema,
visto preto desde que aprendi a decidir

Há noites em que ouço passos
são eles: os caminhos mortos,
arrastando promessas pelas sombras
e me chamando de volta pelo nome
que eu teria se tivesse sido outra

Caso ninguém tenha lhe avisado,
Insisto: escolher é um ato terminal
A vida não admite apelação,
nem visita íntima ao “e se”

O diabo desta vida
é que cada escolha feita
me faz cúmplice da estrada trilhada
e viúva de todas as outras

Sinto o cheiro do arrependimento
antes mesmo que ele brote em meus escombros
A nostalgia lambe meus pulsos nas madrugadas em que sonho com os rostos que não irei conhecer

Mato futuros com a frieza de quem ama
Não de desamor,
mas de sobrevivência.
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