@Cilene
há 5 meses
Público
Gol Contra
Comecei cedo a faxina
decidida a pôr ordem em tudo:
no armário, nos papéis, nas fotografias, na poeira dos cantos,
no chão do quarto.
Uma mancha vermelha escorria do assoalho em um pulso próprio.
Fiquei do joelhos e contra-atacamos - éramos um time: eu e o balde, água e sabão.
Esfreguei até os nós dos dedos arderem.
O líquido pegajoso sumia, mas logo voltava - mais vivo, mais escuro.
Substituí os jogadores. Tentamos desinfetante, vinagre, álcool de posto que usava para limpar os espelhos.
A cada produto, um breve alívio: o horizonte de uma superfície inócua.
Porém, bastava levantar os joelhos e o líquido retornava, insistente, zombando de mim.
Exausta, chorei sobre aquele chão.
Minhas lágrimas mal se misturaram ao vermelho plasmático.
A mancha não desistia.
Meu time sucumbiu.
Eu, ali, ajoelhada em prece há horas e a mancha cuspia de volta o que eu tentava apagar.
Deixei-a. Deitei naquele chão, quem sabe se ignorar, ela vai embora.
O vermelho, no entanto, escorreu-se rapidamente para todos os cômodos.
A mancha estava vencendo, ela me afogaria contente, ali, sem memória de minha posição fetal.
Um jogador que assistia do banco, me ativou uma ideia - completamente desesperada, alucinada, uma última tentativa: um acendedor de velas quebrado na minha cômoda. Convoquei novamente o álcool - definitivamente não era uma partida normal, dava pra substituir as tentativas quantas vezes eu aguentasse.
Molhamos a cortina, os lençóis da cama, o abajur, o pufe de crochê feito pela minha bisavó… eu e meu jogador que, esgotado, pediu pra sair.
Ah! Mas tinha ainda meia garrafa de Vodka, que não dei conta na noite passada. Substituição! Absolutamente para a sala. Taquei, também, o Gim na cozinha.
Obrigada meninos, vocês jogaram muito bem!
A torcida na minha cabeça gritava o nome dele. Era chegada sua hora. Já estava fora da gaveta, no aquecimento, sobre a pia. Acompanhei-o até a porta, na beira do campo. Enquanto ele alongava a cabeça, orientei: “vai com tudo, artilheiro”. Risquei o fósforo.
O fogo subiu em espirais, queimando madeira, paredes, cortinas, lembranças — queimando também a esperança.
Do lado de fora, os vizinhos viam apenas uma casa em chamas. Por dentro, era o meu coração que ardia, e, infelizmente, ainda escorria em meus seios, incapaz de se limpar, condenado a sangrar para sempre. Perdi outra vez.
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Cilene Resende
@seria.uma.sereia
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