Meu avô sempre dizia que o ano começa no primeiro surdo. Foi ele quem me ensinou a amar o carnaval e suas ruas abarrotadas de risos.
Durante anos, dancei com uma flor presa no peito, que tinha nome e perfume. Era a porta-bandeira do meu exagero.
Este ano eu fui de abelha sem flor.
O luto perpassado de amarelo berrante, asas de plástico, ferrão improvisado com cartolina, zumbindo pelas esquinas, cantando marchinha:
“Ô jardineiro, prepara o canteiro, que o meu amor anda sumido no meio do cheiro!”
Nos primeiros dias eu procurava a flor. Entre serpentinas e confetes grudados no suor, imaginava que ela podia brotar de trás de qualquer máscara.
Beijei uma Dália elétrica, toda pintada de glitter azul, que falava alto e ria com a cabeça jogada para trás.
Passei a madrugada com uma Orquídea delicada só na aparência, que sabia o nome das próprias pétalas e não tinha medo de desabrochar na cama improvisada do hotel barato.
Teve também uma Margarida distraída, que me ensinou que arrancar pétalas é um jeito antigo demais de decidir.
Mas as flores me pareciam tão murchas. Talvez por excesso de sol, talvez por excesso de mim.
E, ainda assim, em algum momento entre um bloco e outro, percebi que estava feliz porque o meu corpo, finalmente, parava de perguntar onde estava a flor e começava a perguntar onde eu estava.
O carnaval acabou. Saí sem asas. Foi estranho como o silêncio depois do último tambor.
Se fosse marchinha, seria assim:
“Abelha sem colmeia Voando em torno de mim quem perde a primavera descobre que também é jardim.”
querido Papai Noel eu sei que a escola pediu para a gente escolher um presente podia ser boneca cozinha de plástico ou aquelas coisas de menina que todo adulto fala sorrindo como se eu tivesse prometido alguma coisa pra eles antes mesmo de nascer
mas eu queria mesmo era virar super-herói
não de capa (acho que engancha nas quinas da mesa) não de salto alto (minha tia disse que toda mulher precisa aprender) não de sorriso paciente que aguenta tudo igual vi minha mãe engolir ontem quando o mundo dela caiu dentro de uma pia cheia de louça
eu queria poder salvar gente inclusive eu
não quero casar cedo nem carregar bebês antes de carregar meus próprios sonhos não quero limpar o chão dos outros enquanto sujam o meu nome nem quero ser chamada de exagerada quando disser que dói
querido papai noel sei que isso talvez não caiba no trenó me disseram que menina nasce sabendo cuidar mas eu só sei correr rápido e pensar coisas enormes e sentir um fogo bonito no peito quando imagino que posso voar para longe de tudo o que querem que eu seja
se não der pra me dar superpoderes pode me mandar só uma coisa então: um amanhã onde ninguém diga que eu nasci errada
porque eu juro papai noel eu juro que só queria sentir a espada cortando o braço peludo que tentou passar a mão na minha bunda no dia do meu aniversário
eu juro que eu só queria salvar o mundo antes que o mundo me engula.
Comecei cedo a faxina decidida a pôr ordem em tudo: no armário, nos papéis, nas fotografias, na poeira dos cantos, no chão do quarto. Uma mancha vermelha escorria do assoalho em um pulso próprio.
Fiquei do joelhos e contra-atacamos - éramos um time: eu e o balde, água e sabão. Esfreguei até os nós dos dedos arderem. O líquido pegajoso sumia, mas logo voltava - mais vivo, mais escuro. Substituí os jogadores. Tentamos desinfetante, vinagre, álcool de posto que usava para limpar os espelhos. A cada produto, um breve alívio: o horizonte de uma superfície inócua. Porém, bastava levantar os joelhos e o líquido retornava, insistente, zombando de mim.
Exausta, chorei sobre aquele chão. Minhas lágrimas mal se misturaram ao vermelho plasmático. A mancha não desistia. Meu time sucumbiu. Eu, ali, ajoelhada em prece há horas e a mancha cuspia de volta o que eu tentava apagar.
Deixei-a. Deitei naquele chão, quem sabe se ignorar, ela vai embora. O vermelho, no entanto, escorreu-se rapidamente para todos os cômodos. A mancha estava vencendo, ela me afogaria contente, ali, sem memória de minha posição fetal.
Um jogador que assistia do banco, me ativou uma ideia - completamente desesperada, alucinada, uma última tentativa: um acendedor de velas quebrado na minha cômoda. Convoquei novamente o álcool - definitivamente não era uma partida normal, dava pra substituir as tentativas quantas vezes eu aguentasse. Molhamos a cortina, os lençóis da cama, o abajur, o pufe de crochê feito pela minha bisavó… eu e meu jogador que, esgotado, pediu pra sair. Ah! Mas tinha ainda meia garrafa de Vodka, que não dei conta na noite passada. Substituição! Absolutamente para a sala. Taquei, também, o Gim na cozinha. Obrigada meninos, vocês jogaram muito bem!
A torcida na minha cabeça gritava o nome dele. Era chegada sua hora. Já estava fora da gaveta, no aquecimento, sobre a pia. Acompanhei-o até a porta, na beira do campo. Enquanto ele alongava a cabeça, orientei: “vai com tudo, artilheiro”. Risquei o fósforo.
O fogo subiu em espirais, queimando madeira, paredes, cortinas, lembranças — queimando também a esperança.
Do lado de fora, os vizinhos viam apenas uma casa em chamas. Por dentro, era o meu coração que ardia, e, infelizmente, ainda escorria em meus seios, incapaz de se limpar, condenado a sangrar para sempre. Perdi outra vez. —————————————— Cilene Resende @seria.uma.sereia
todo dia acordava, tomava café, amarrava o cabelo, calçava o tênis, passava pelo mesmo portão que rangia arrancava uma florzinha azul da trepadeira que disfarçava o muro descascado, cumprimentava o senhor do chapéu que nunca responde e seguia para o parque
bom dia, dormiu bem? quais são os planos para hoje? vai dar certo. Já deu to com saudade te amo
amava esse caminho ele era só meu, ninguém sabia eu era só dele, ninguém sabia
mas um dia a rua estava fechada placa amarela, fita vermelha, nenhum caminho e o amor não soube para onde ir
danças como quem teme o chão ainda que flertes com o abismo enquanto giro no compasso de um peito exposto, com a pele pronta com o ventre disposto à vertigem dois pra lá e dois pra cá,
quente, úmida, úmida, quente,
como febre suando meu corpo conduzido pela sua mão coletora de gotas que percorrem o escorregador de minha coluna arrepios com o som do ritmo secreto do nosso beijo aflora o desejo de uma coreografia antiga
danças como quem teme o chão ainda que flertes com o abismo enquanto giro no compasso de um peito exposto, com a pele pronta com o ventre disposto à vertigem dois pra lá e dois pra cá,
quente, úmida, úmida, quente,
como febre suando meu corpo conduzido pela sua mão coletora de gotas que percorrem o escorregador de minha coluna arrepio com o som do ritmo secreto do nosso beijo aflora o desejo de uma coreografia antiga
gemes, no entanto, hesitas hesitas, no entanto, gemes
seria o carma da bailarina, confiar sua vida a quem não sabe dançar?
Ela tocou a taça no queixo porque precisava do toque. O vinho tingia o cristal como um presságio. Os olhos dele, mesmo do outro lado da tela, tiravam suas roupas com mais precisão do que mãos ousadas. “Você sempre me põe alguma vontade”, ele dissera. “Qual a de hoje?”, ela provocara, já imaginando que leria uma boa resposta no calor que subia pelas coxas.
A mensagem chegou como um sussurro que atravessava o vidro: “Começa com mergulhar os dedos na tua taça, depois na tua boca, te olhando os olhos de muito perto.”
Ela sentiu a boca se entreabrir, não pela surpresa, mas pela antecipação. O dedo úmido do vinho poderia ter sido dele, roçando seu lábio inferior, empurrando devagar para dentro, como quem oferece um segredo para ser guardado entre dentes e saliva.
“Essa carinha de reação é bem como pensei a sua boca mesmo”, ele completou.
Ela respondeu com um “hmmmm”, mas seu corpo inteiro falava outras línguas, outras urgências.
E então ele afundou mais fundo nas palavras: “Se viesse um gemidinho assim, iriam também outros dois dedos na tua boceta, sem tirar os da tua boca e ainda te olhando os olhos de muito perto.”
A cena se desenhava perfeita em sua mente — os olhos fixos, os dedos orquestrando uma dança entre lábios e carne pulsante. Ela respondeu com um arrepio e uma confissão: “que cena perfeita.”
E ele seguiu, sabendo que já não havia como parar e nem queria recuar: “Os dedos todos e os olhos todos continuariam, até você gozar. Sem outro toque, sem mais proximidade do que estar perto, te olhando e tocando a boca e a boceta por dentro.”
Ela adorou a maldade dessa ideia, mas desafiou: “Será que consegue? Ficar longe?”
“Consigo”, ele disse. “A visão do teu corpo a essa curta distância e os teus movimentos… Eu seria capaz de te olhar assim muito tempo. Mas nem acho que seria preciso tanto tempo até você gozar.”
“Não, não seria”, ela admitiu mais rapidamente do que deveria.
E ele concluiu como quem sela um feitiço: “O movimento do teu quadril, bicando nos meus dedos. Aqui, só a construção da cena me põe vontade de um gozo. Imaginar também o teu corpo ao ler, aumenta minha vontade.”
Ela fechou os olhos, imaginou o tamanho e a dureza da vontade, sendo empurrada para dentro de si.
E isso arruinou qualquer chance de um minuto a mais. Gozou com força e vazio. Sem vergonha e sem pele. Ali mesmo, entre letras, vinho e desejo teleguiado.
te escrevo com as mãos frias e o coração - que te dei - em minhas mãos (ainda batendo)
às vezes acho que é por você às vezes acho que é apesar de você
te nomeio querido, porque não sei como se saúda o Amor e, como se presenteia o Amor? com flores? com um olhar em silêncio no ponto do ônibus? seria com o susto de reconhecer a si mesma em outro corpo? em outra risada? em outro abandono?
oi, amor oi seria isso? um aceno? uma vertigem? um poema escrito errado?
o seu corpo, Amor é morno e confuso é a cama quando ainda tem o cheiro dele é o braço que aperta quando você diz que vai embora é o eco de uma risada no caminho do teatro no dia que você esqueceu de trancar a tristeza do lado de fora
e quando você falta é como se todo o oxigênio do mundo tivesse voltado pra estrela que pariu isso tudo a gente ofega, ofende, reza a gente jura que não vai mais e vai e volta e sangra
sei pouco sobre você sei que “um dia” é a sentença da esperança uma quimera cruel e fria disfarçada de motricidade e quem diria que “um dia” eu ainda iria a este amor e que, sem expectativas, um sorriso me atravessaria, surpreendendo meus lábios já tão secos de utopia agora, tão desprovidos de dignidade
você me quebrou, Amor me reescreveu sem avisar que ia mudar o enredo me ensinou que ninguém ama impunemente, que o peito é casa mas também é escombro
mesmo assim mesmo assim mesmo assim e talvez só por isso
não sei viver sem você e essa é a mais triste das verdades a mais bonita também
sem você eu como mas não me alimento respiro mas não suspiro ando mas não chego
você Amor, é incêndio e nascente é ausência e altar
e eu… sou essa mulher com olhos cheios de água pedindo outra vez para ser acolhida nos seus braços mesmo sabendo que você às vezes também não sabe abraçar
nesse dia dos namorados, te escrevo com tudo que restou e tudo que falta
a vida esse fio fino que a gente insiste em vestir como se fosse manto eterno anda curta mas cabe nela um amor inteiro se a gente deixar
ele espera no ponto exato em que o medo vira saudade antecipada com uma mala leve, cheia de vontades: de amar sem freio, de errar bonito, de rir alto, de viver junto como quem constrói abrigo em dia de tempestade
ninguém promete o sempre mas, se for com você, quero o agora porque o agora, com você, já é mil vidas com gosto de recomeço
vem vamos ser a chance que quase ninguém tem de fazer o tempo valer
Com mãos firmes, olhos marejados, degolei futuros como quem corta flores lindas demais para durar Feita de carne e dilema, visto preto desde que aprendi a decidir
Há noites em que ouço passos são eles: os caminhos mortos, arrastando promessas pelas sombras e me chamando de volta pelo nome que eu teria se tivesse sido outra
Caso ninguém tenha lhe avisado, Insisto: escolher é um ato terminal A vida não admite apelação, nem visita íntima ao “e se”
O diabo desta vida é que cada escolha feita me faz cúmplice da estrada trilhada e viúva de todas as outras
Sinto o cheiro do arrependimento antes mesmo que ele brote em meus escombros A nostalgia lambe meus pulsos nas madrugadas em que sonho com os rostos que não irei conhecer
Mato futuros com a frieza de quem ama Não de desamor, mas de sobrevivência.