VIAGEM NO TEMPO (mais uma contribuição envergonhada para o sexxxtou)
Eu pensei que não faria outro sexxxtou na vida. Mas decidi experimentar uma mistura de poema hot com sci-fi (é a minha área, afinal de contas) A ideia é: Imagine um ménage entre uma mulher ,meu eu atual e meu eu do passado? Espero que gostem. Eu achei a experiência e o exercício... Bem... Deixa pra lá. (Obs: Eu nunca sei se estou perdendo o tom; então, se vocês acharem que está além da conta, me avisem nas mensagens privadas... )
**VIAGEM NO TEMPO**
Estamos em três. Eu, você e eu. Você, a mais centrada, no centro. Ele te acaricia os seios, Eu me encosto no seu traseiro.
Ele beija seus lábios, você se vira Deixa seu rosto de lado para nós dois Beijamos-te, cada um em uma bochecha, Beijamos os três, línguas trançadas.
Seu hálito se espalha entre nós dois Um mesmo aroma dividido em dois suspiros. Seu perfume se confunde com nosso suor, Como um bálsamo a se aquecer no nosso fogo.
Ele encosta em sua virilha e te enlaça as costas, Eu me acomodo nas suas nádegas, e te enlaço o umbigo Você, o recheio de um delicioso sanduíche: Misto mais que quente.
Ele te beija como em 1996 — Mas eu, que já conheço teus dentes, Prefiro morder teu ombro, onde guardo marcas de outros verões.
Quem você quer na frente? Quem você quer por trás? Eu e meu eu do passado aguardamos... Você será de nós dois, de toda forma: Mas pode escolher as posições.
Está sentindo? Entre a lança e a espada, Você deverá decidir como irá ser: Quem adentrará em cada domínio proibido De seu corpo, a estremecer e palpitar.
Respire. Calma. Não tenha medo. Não vamos te machucar nem forçar a barra. Mas você sabe que não há para onde escapar: Hoje, você será invadida por duas eras.
Invadida por inteiro, Gemidos diferentes, de ontem e de hoje, Perfumes que arfam em ares distintos. Sândalo que te envolve a alma.
Ele te acaricia como quem descobre um país, Mas eu, navegante antigo, leio teus mapas, E você, bússola de carne, no centro Nos guiando e abrindo seus segredos.
Você, bússola de carne a girar, descontrolada E nós, dois imãs do mesmo polo, a te confundir, Te virando do avesso em êxtase e arrepios E te repartindo em eternidades
Suas duas mãos. Duas armas em riste. Você aceita ambas e acaricia Cada um dos seus dois objetos de desejo, Decidindo de qual abismo cada um será senhor.
Mas não há o que escolher: vamos trocando E te girando a cada nova empreitada: Ora eu, ora ele, atrás, na frente Você no meio, você envolta. Centrada.
Ele tem o vigor, eu tenho a experiência. Você tem a nós dois, e está plena. O prazer explode por várias veredas, E inundamos você em torrentes de orgasmo.
Isso. Sente a ambos. Sem controle. Brincamos com seu corpo e seu espírito, Até que seu corpo não saiba se é fogo, líquido Ou o tempo que te consome - espasmos em loop.
Mas, não, não és uma garota submissa: És a dona do ritmo, que sabe o que quer. És a deusa de duas fases de uma mesma vida, És mulher o bastante para incendiar nós dois.
Não és território a ser conquistado: És nosso centro de gravidade. És senhora do jogo, és boca que ordena "Mais fundo" a um, "Mais devagar" ao outro.
Entre a volúpia adolescente E a calma da meia-idade, És o centro e domina És quem nos dita os caminhos dentro de ti.
Boa menina. Sedenta. Gulosa. Mulher sem medo, louca para dar prazer A nós dois - o mesmo homem, em dobro, Presente e passado te devorando.
São altas horas da madrugada; na TV, apenas dois canais. A reprise de uma partida de futebol, e um filme legendado. A luminária ainda acesa, apenas as mãos para fora do cobertor. São apenas dois canais; se alguém, nesta imensa cidade, estiver acordado e com a televisão ligada, certamente estará diante de um dos dois espetáculos.
Em um canal passa um jogo antigo de futebol. Peleja desinteressante, de craques que já não perambulam mais pelos gramados; de gols que já foram há muito comemorados, de um resultado que não mais exprime surpresa a ninguém; que já entrou para a história. Ainda assim, se algum televisor estiver ligado a esta hora em alguma casa da cidade, poderá estar retransmitindo estas mesmas imagens.
O controle remoto é acionado e desacionado várias vezes, com certa veemência. Em outro canal passa um filme legendado, narrando a Guerra do Vietnã. Um acontecimento que todos já estão cansados de ver; uma guerra na qual nem entramos, umas letrinhas que vêm e que somem da tela, sem que ninguém neste mundo tenha tempo de ler. Um documentário sonolento, mas que, uma vez que tenha na vizinhança uma única TV ligada, pode estar sendo assistido.
As horas passam ferozmente. Agora, na TV, só nos resta um único canal, que transmite um jogo de Copa do Mundo. Se, por acaso, alguma televisão, neste grande Estado, ainda estiver no ar, certamente estará neste canal. Um jogo enjoativo, que não é do escrete nacional, que não tem nenhum jogador consagrado, que não nos vale nada, enfim. Mas não importa: este é o único canal no ar, motivo pelo qual qualquer TV que esteja ligada, a essa hora, deverá estar nele.
A janela mostra que a escuridão ainda domina. O jogo acaba; na TV, os chuviscos monocromáticos afirmam a ausência de sintonia de qualquer outra imagem. Pode-se dizer que, se por um acaso, algum televisor, qualquer um, mísero, velho, preto-e-branco, que seja; qualquer cidadão, enfim, que ainda esteja acordado diante de uma TV ligada, neste imenso País, sem sombra de dúvidas estará diante destes confortantes e implacáveis chuviscos, que passam a ideia de que nada mais está no ar.
A janela mostra o clarear do dia. Os olhos, tremendo de frio, esticam-se até o horizonte e vislumbram o mais maravilhoso espetáculo criado por Deus. O negro vai dando lugar ao roxo, que dá lugar ao vermelho, que dá lugar ao alaranjado, que por sua vez dá lugar ao amarelo, que reúne novamente o negro, o roxo, o vermelho e o alaranjado para reverenciar a vinda do Astro-Rei. Se algum mortal, ínfimo na sua ignorância, ainda estiver desperto, neste mundo cinzento e gélido, será com certeza o ser mais agraciado do universo, por presenciar o mais absoluto espetáculo de luz e cores, que nem o melhor televisor do mundo vai, algum dia, ser capaz de reproduzir com perfeição.
Há dois dias, postei aqui um poema chamado "Eis" - que está no link Abrir link - e hoje resolvi fazer um exercício de escrita. Quem quiser, leia o original. Este aqui é o outro ponto de vista, feminino.
** Eis II**
Eis a ti. Meu? Não... És do mundo. Sou tua, De corpo e alma, e aqui, nua, Tua, em todo o meu "Eu".
Eis tu, aqui, Comigo, dentro, em mim, Me devorando, prendendo-me, assim, A ti.
Eis a nós. Nós. Eis o mundo, que fica lá fora, Sem outro nem outra, eu e tu, no agora, A sós.
Eis a ti, senhor Dos meus anseios e do meu conforto, Das respostas às dúvidas do meu corpo: Eis o Amor.