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@mariadriano

Mari Adriano
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@mariadriano
há 6 meses
Público
NASCENTE

Era o primeiro sábado do outono, e o sol nasceu às seis e quinze. Eu lembro porque vi o céu se abrindo pela janelinha do banheiro, enquanto tomava um banho bem quente, como me orientaram a fazer. Bom, duvido que tenham falado em “bem” quente, talvez tenham usado a palavra “morno”. Nunca fui adepta ao morno, quando se trata de água do banho, de café, ou de vida.
O banho ajudou, de fato. Acalmou-me e lembrou-me de que estava pronta. Eu já vinha me preparando há meses, ou há uma vida inteira. Mas quem sabe quando começa a vida e quando começa a preparação?
Eu só não sabia o dia exato em que partiria.
Fui avisada um pouco antes das seis. Acordei assustada, ao saber que enfim havia chegado o dia. A grande viagem estava prestes a começar. Eu já tinha aceitado que seria só partida. Que eu não voltaria para casa, para a vida de antes.
Eu deveria me aprontar com calma. Se a jornada seria longa, não havia porque me apressar. Tomei o banho quente e longo, vi o sol nascente. As malas estavam feitas há semanas, mas conferi mais uma vez. Tudo certo na minha e na dele.
Caminhei um pouco, no corredor de casa, sentindo tudo: a dor, o medo, a emoção.
Deitei de novo. Ainda havia tempo. Ponderei se deveria avisar meus pais e os amigos mais próximos. Não avisei ainda. Haveria espaço para inseri-los em outro momento.
Liguei a televisão do quarto. Não que eu fosse conseguir assistir a qualquer coisa naquela situação, mas precisava abafar o silêncio incômodo do amanhecer.
O marido insistiu que eu comesse, mas meu ventre, agitado, avisava que não seria boa ideia colocar mais nada para dentro. Agradeci pelos ovos cozidos que ele me trouxe na cama, mas prometi levá-los na viagem. Esqueci na mesa de cabeceira.
Era meio-dia quando entendemos que era hora. Despedi-me da minha casa, da antiga realidade, inalando o cheio forte do café que não consegui tomar. O marido carregou as malas e eu carreguei a vida até a garagem.
O trajeto de carro não foi longo, mas demorou uma eternidade. Foi desconfortável, quase impossível. Cada curva aumentava meu sufocamento.
Depois, o desconforto deu lugar à maior dor do mundo. Entre as dores, lágrimas. Entre as lágrimas, sorrisos. Um sonho estava ganhando corpo.
Horas se passaram, uma tarde inteira.
Às dezoito e trinta, o sol se pôs. Eu vi, pela janela, as cores alaranjadas no céu, no momento em que eu entregava minha última energia, minha última força. Enquanto anoitecia lá fora, ali dentro a luz nascente da vida vibrava. Vi aqueles dois olhinhos arregalados me olhando pela primeira vez.
E entendi que já não era a mesma que parti. Outra eu retornaria à casa, com uma nova vida no colo.
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@mariadriano
há 1 ano
Público
A Dona Morte estava cansada. Quantas vidas já havia levado durante toda a eternidade? Algumas tão fáceis, outras difíceis demais. Resolveu observar; entender o porquê disso.
E percebeu que a chave estava nos hábitos. As vidas sedentárias, com maus hábitos alimentares e vícios de todos os tipos eram as mais fáceis de tirar.
Então, para facilitar seu trabalho, começou a divulgar. Usando as redes sociais, postou vídeos viralizantes ensinando como viver "melhor".
Logo fechou um contrato milionário de "publi" com uma grande indústria de alimentos. Salgadinhos, bolachas recheadas, refrigerante. Tudo cheio de açúcar e sódio, do jeitinho que a Morte gosta.
Se dedicou tanto ao novo trabalho de influencer que esqueceu que, sem seu trabalho de levadora de vidas, nada faria sentido.
Todos começaram a segui-la, venerá-la. Comeram o que queriam, as academias fecharam, as drogas se tornaram tão populares quanto a Morte.
Depois de um tempo, os seguidores da Morte começaram a adoecer gravemente, mas sem a esperança de um fim que os tirasse daquela tortura.
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@mariadriano
há 1 ano
Público
O conto Sintonia do Amor foi escrito especialmente para participar do Concurso Aline Alencar. O tema era "o som do amor", e eu passei quase o período inteiro das inscrições planejando a história. Fui escrever apenas no último dia. A boa notícia é que o conselho de Abraham Lincoln (se eu tivesse 8 horas para cortar uma árvore, gastaria 6 afiando meu machado) se mostrou muito bom. Meu conto foi um dos vencedores, ficando em quinto colocado.

O Waldir, que é o organizador do concurso e avaliador dos contos, na live de divulgação dos resultados, confessou que, apesar de ter gostado muito da história que criei, relutou em aceitar o final. Chamou de "tragédia". Minha professora Liz Negrão sempre diz que o conto é uma narrativa de impacto. Talvez eu tenha pesado um pouco a mão na resolução da história. Bom, vamos ver o que vocês me dizem, queriam um final diferente?
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@mariadriano
há 1 ano
Público
Marcas na areia

Estou correndo, sozinha, na areia da praia. Ouço o som das ondas quebrando ao meu lado, olho o horizonte e a pergunta me vem com força: De quem estou fugindo?

Estou fugindo de mim. Dos meus medos, da minha ansiedade. Da procrastinação, do perfeccionismo. Das minhas piras e divagações. Estou fugindo das minhas falhas, das frustrações, das decepções.

Ouço minha respiração, ainda mais ofegante. Sinto meu coração, batendo insanamente dentro de mim.

Não tenho como fugir.

Paro. Respiro. Uma, duas vezes. Olho para trás. Sinto o ar salgado enchendo meus pulmões. Vejo o caminho percorrido até aqui, as marcas dos meus passos que a maré tenta apagar. Cada quilômetro que minhas pernas venceram.

Dou meia volta.

Volto a correr, na direção oposta à anterior.

Então corro ao meu encontro. Ao encontro dos meus medos, da minha coragem. Dos meus devaneios. Das minhas vontades, dos meus sonhos e das minhas realizações.

Chego ao final da corrida, no ponto onde comecei. E ali me encontro: não mais a mesma.
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@mariadriano
há 1 ano
Público
Chegando nessa nova plataforma. Estou animada e pensando em que conteúdos disponibilizar por aqui. Feliz em termos agora esse espaço todo pensado em nós, autores independentes.
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