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@CrisRibeiro

Cristiane Inácio Ribeiro Carneiro
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@CrisRibeiro
há 7 meses
Público
#Desafio 221

222 de 365

    Três vezes o pulso,
    batida do tempo
        suspenso,

eco de silêncios
        entrelaçados:

            ritmo denso.

Dois,
    a dualidade:

        sombra e luz,

        prumo e desvio,

em gesto tríplice,
    a cifra seduz.

No vão
        da espera,

o instante
        revela:

sem pressa
        no toque,

nem eco
        na tela.

Número que dança

        entre finito e eterno,

guarda e liberta,

        no campo das horas,

a beleza
        encoberta.

Crs Ribeiro
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@CrisRibeiro
há 7 meses
Público
#Desafio 220

Ele chegou lento…
manhã fria que se espreguiça na vidraça.

Mês da nova idade.
Novos ciclos.
Talvez caminhos que o destino rabisque
com a ponta cega de um lápis.

Pelo que palpita o teu peito?
O que ainda ousa querer?
Vai ter coragem…
de fazer?

A vida é só passagem:
dias a mais,
vida a menos.

E enquanto fingimos eternidade,
os sonhos criam poeira nos ossos.

Agosto não é acaso.
É a gosto de quem
segura as rédeas.

Tudo é direção.
A vida só floresce
para quem decide.

A caixa de Pandora
se abriu há muito.

Entre escombros e ruínas,
sobrou algo pequeno,
teimoso,
indomável:

Esperança.

Ela está olhando pra você.
E não vai esperar para sempre.

Crs Carneiro
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@CrisRibeiro
há 7 meses
Público
#Desafio 219

O Riso que Me Habita

Pai, vento que ri.
Sorriso que ainda abre ruas
dentro de mim.

Voz com cheiro de domingo
e som manso de chuva chegando.

Me ensinou que a vida
é coisa para se gostar.
Que tristeza é só intervalo
para beber da própria fonte.
Que felicidade não se guarda:
é vinho bebido no instante.

Seresteiro de luas cheias.
Festeiro de noites sem pressa.

Carinho servido em mãos quentes.
Amor de raiz funda.

Sensibilidade que não se exibe:
toca, silenciosa,
onde mais dói
e mais cura.

Tudo o que sou de melhor
veio dele:
o riso que me habita,
o amor que me atravessa,
e esse jeito de olhar o mundo
como quem sussurra:
— Vai, menina…
a vida é tua festa.

Crs Ribeiro
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@CrisRibeiro
há 7 meses
Público
#Desafio 218

Ao Teu Morrer



Que nunca
se quebre

o encanto,

que teu
corpo,

manto
e pranto,

me arranca

ao amanhecer.

Ao toque,

minha febre
inflama,

sou chama

que em ti
derrama,

erguendo-me

para
te obedecer.

Prenda-me

como
quem ama,

me açoita

como
quem clama,

e depois

me faça
estremecer.

Não ouses

compaixão
no rito,

me consuma

até
o infinito,

faz-me gritar,

me desfazer.

Que dure

o sempre
insano,

te quero

fera
e humano,

me afoga

sem
se conter.

O tempo,

em nós,
dissolve,

meu tesão

em ti
revolve:

só finda

ao
teu morrer.

Crs Ribeiro
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@CrisRibeiro
há 7 meses
Público
#Desafio 217

Do Amor, Restou a Louça

Café sem açúcar,
beijo sem língua.
A rotina os risca
com navalha cínica.

“Quer jantar fora?”
ele ousa dizer.
“Quero sair de mim”,
ela pensa, a arder.

A carne esfria,
o vinho se esconde.
Brindam o tédio
com gelo e remédio.

Corpos colidem,
sem se entender.
Costas se amam
pra não doer.

E nas fotos, a farsa:
sorrisos domados.
O amor? Um ladrão —
roubou-se calado.

E pairando no ar,
um aviso sutil:
Cuidado: o amor vence,
mas morre em abril.

Crs Ribeiro
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@CrisRibeiro
há 7 meses
Público
#Desafio 216

Sentido Único
(com duplo sentido)

Ando por ruas
que me atravessam.

Viro esquinas,
mas sou eu que desvio
do que não sei nomear.

O destino,
é só um acidente
que se vestiu de escolha.

Todo dia é expediente,
mas nunca o bastante
para dar conta
do que lateja
entre um suspiro e outro.

O que sinto
varia.
Com juros,
sem carência.

Na vitrine da vida,
tudo reluz.
Mas o que é ouro?
E o que é purpurina
que finge profundidade?

Lugar de fala se vende.
Silêncio, não.
Tem quem ouça com a epiderme
e quem veja com os móveis da sala.

Sou poeta.
Inquilina do avesso.
Moro na dobra das palavras,
na rachadura
entre o sentido e o delírio.

Meu vocabulário é torto
feito corpo apaixonado.

Mas minha fé…

essa caminha

descalça

e não
tropeça,

mesmo
nas
ruínas.

Crs Ribeiro
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@CrisRibeiro
há 7 meses
Público
#Desafio 215

Entre o Verbo e a Viga

Há de ver, cidade.
Tanta pressa no passo,
tanto peso no prazo.

O afeto:
moeda mais cara da praça.

Tem quem trabalhe por amor
e receba cansaço.
E segue:
amar é teimosia.

Na ladeira dos dias,
subo ereta,
mas o coração
escorrega.

Sanidade,
às vezes,
é só não sentir.

Forma demais,
fome de menos.

Paz armada
até os dentes.

Verso
vira prosa.

Prosa
vira nada.

Milagre
só com carimbo
e firma reconhecida.

Vou entre:
tempo & templo,
santo & centro,
ser & servir…

Pedem silêncio.
Dou.
Não é paz,
é sede
de alguma verdade.

Verso é bisturi:
corta,
sangra,
cura bonito.

Já fui verbo,
viga,
vírgula.

Hoje sou
ponto de interrogação
pedindo colo
no travesseiro da pressa.

No fim, eu sei:
viver é verbo
que pede conjunção.

E o amor…
ainda é a melhor delas.

Crs Ribeiro
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@CrisRibeiro
há 7 meses
Público
#Desafio 214

RUÍDO BONITO

A cidade
é um ruído bonito:
todo mundo grita.
ninguém escuta.

Meu peito,
rádio velho,
chiando em estação
no dial errado.

Tenho medo
de virar rodapé
que ninguém lê,
mas que,
de repente,
toca num lugar escondido
de alguém distraído.

Escrevo cartas
com cheiro de adeus.
Não envio.
Não sei pra onde.
Só sei que doem menos
quando viram papel.

Desejo menos dor,
ou — que ousadia —
um cafuné decente,
de olhos fechados,
sem urgência.

Sei que sou difícil,
não me edito.
Amo com todas as falhas
e ainda assim,
não sou esse erro
que tentam deletar
com frieza e clique.

Ás vezes
acordo flor
e o dia me cinza:
me apago devagar.
Mas logo
me rego
com café forte,
lágrima quente
e poesia crua.

Essa noite sonhei
com uma voz que sussurrava:
“tá tudo bem não saber.”
Acordei com essa frase
pendurada no peito
feito medalha
ou promessa.

Se me cruzar por aí,
me lê devagar.

Tenho entrelinhas,
sou cheia de espinhos,
mas também escondo abraços
em tudo o que escrevo.
(talvez até em você)

com amor
(e esse medo bonito
de quem sente demais),

Crs Ribeiro
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@CrisRibeiro
há 7 meses
Público
#Desafio 213



Fé?
Fé é ficar de pé
com o joelho do mundo
no seu pescoço.

É rir no esboço,
amar no esgoto,
escrever poesia
com o cotovelo
pressionando o rosto.

Não é trocadilho,
minha filha,
é trauma com rima.

Porque verso
não é enfeite
é arma branca,
lâmina linguística,
faca sem cabo
cravada no dicionário.

E eu sigo:

entre ser verbo
ou virar silêncio.

Entre rimar com raiva
ou calar com senso.

Mas hoje eu falo.
Hoje eu rasgo.
Hoje eu rimo.

Porque palavra é bala
e eu
sou o gatilho.

Crs Ribeiro
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@CrisRibeiro
há 7 meses
Público
#Desafio 212

NUA DE FILTRO

Penso,
logo embucho.

A existência não pesa no peito.
Pesa no estômago.

E arde.

Pergunto ao Uber:
— Para onde vai o ser?

Ele olha pelo retrovisor e diz:
— Depende do trânsito, moça.
E da tarifa dinâmica.

Desço nua de filtro,
cheia de sede.

Sem rumo,
mas com wi-fi.

Procuro um ser humano.
Acho um influencer
em jejum de afeto.

Tento subir
a escada da ideia,
mas tropeço

num story
com filtro de cachorro.

O mundo real
virou cenário desfocado
para o close certo.

Passo no RH.
Quero pedir a demissão de Deus.

Mas o chefe é algoritmo.
Só responde de segunda a sexta,
das 10h às 16h.

(Exceto feriados
e orações mal formuladas.)

No fim,
o mais sábio
era aquele bêbado
na fila do pão.

Olhou pra mim
com farelo nos lábios…

E disse:
— Tudo é relativo.
Inclusive o troco.

Eu ri.
Depois chorei.
Depois publiquei.

Crs Ribeiro
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