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@palavras_e_espadas

Marcello Salvaggio
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Público
Aproveitando que estamos no mês do terror, passo aqui para divulgar meu conto "A Casa de Marte", disponível na Revista Literatura Fantástica Vol. 28!

Segue o início do conto para degustação:

A CASA DE MARTE

A pequena Damiana não sonhava, mas, sempre que fechava os olhos, com um caderno aberto sob sua caneta multicolorida, desenhava as coisas que via. Eram coisas estranhíssimas, que não pertenciam a este mundo, como bibliotecas imensas, cujas estantes davam voltas por corredores em espiral que não tinham fim. Ascendiam rumo a um teto de luz, enquanto embaixo não havia piso, mas um abismo de trevas.

Houve uma ocasião em que reuniu toda sua coragem e desceu ali. As estantes, nas profundezas, não eram de metal e madeira, e sim de ossos. Já os livros eram feitos de carne e vasos sanguíneos.

Apanhou um deles, cuja capa trazia a imagem de uma cobra constituída de veias e artérias. Aquela serpente pulsava como um coração.

Damiana reabriu os olhos. Fora impossível retratar com perfeição o que vira, porém lá estava um desenho, em vermelho, que representava minimamente o que testemunhara.

Sua avó Violante talvez fosse uma influência espiritual ou genética – ou quiçá ambas as coisas – que explicava sua natureza. Era uma italiana que não combinava com o estereótipo, pois falava baixinho, era paciente e quase não gesticulava. Mas, como toda avó, adorava contar histórias para a neta. Colocava-a no colo e falava de suas antepassadas. Natural de Benevento, no sul da bota, não se envergonhava de pertencer a uma família de bruxas. A tradição local contava que lá, debaixo de um antigo carvalho, morava uma serpente que era venerada como um espírito guardião. Reuniam-se em volta daquela árvore, portanto, para solicitar refúgio, orientação, proteção, fertilidade na primavera e clemência no inverno, entre outras coisas.

Negava ser ela própria uma bruxa. Mas tinha uma coleção enorme de livros a respeito do tema.

Quando a velha Violante partiu, os pais de Damiana não demonstraram lá grande respeito por sua memória e enfiaram todos aqueles volumes em caixas que entregaram a um sebo. Seu pai não parecia ter herdado nem uma gota do sangue das bruxas de Benevento. Pelo contrário, achava aquilo uma tremenda bobagem. Talvez porque fosse homem. Apesar que sua mãe era mulher e tinha medo. Talvez porque não tivesse o sangue.

Contudo, Damiana salvara um que havia chamado muito sua atenção.

Seu título era A Casa de Marte. A introdução explicava que se tratava de um grimório, ou seja, um livro de feitiços. Lembrava bastante o que tinha visto de olhos fechados. Não era de carne, mas era vermelho, com uma serpente que mordia um pomo rubro, e descrevia diversos espíritos pertencentes à esfera do planeta Marte. Tratava, aliás, de evocações de espíritos marcianos, cujas descrições e funções eram fascinantes, com seus nomes sempre começando por letras capitulares maravilhosamente ornadas, que aludiam aos seus aspectos.

Bartzabel, tido como o grande espírito planetário, era o mais destacado de todos. A letra B que iniciava seu nome apresentava uma cauda de duas pontas, enquanto a parte de cima da letra era uma cabeça de cobra.

Já a ilustração do espírito propriamente dito era a de um anjo vermelho com rosto de serpente. Damiana tinha fechado as pálpebras e o desenho havia assumido uma forma concreta diante dela, com asas de carne nas quais se abriam olhos cujas íris eram fogo, envolvendo pupilas que a refletiam como uma mulher adulta. Sabia ser ela mesma, porém dez anos mais velha.

Tinha fechado o livro. Faltara-lhe coragem para entregá-lo ao pai, que teria lhe dado uma bronca. Só que também não queria jogá-lo fora.

Limitara-se a guardá-lo, ocultando-o em uma das gavetas do quarto, debaixo de suas blusas (...)

Caso tenha gostado e queira lê-lo por inteiro, segue o link para a compra da revista na Amazon:

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Público
Krakenburgo

O polvo se estendia por milhares de quilômetros, habitado por gente aos milhões, com rodovias, ruas e ferrovias pelos seus tentáculos. Nas ventosas, havia um transporte público mais rápido, um trem-bala que ia por dentro, saindo por outra ventosa. Na cabeça ficavam os prédios e as casas, escritórios, teatros, shoppings, cinemas e boates. Tudo parecia ir às mil maravilhas! No entanto, na estação chuvosa, o mar transbordava e a besta despertava do seu longo sono, agitando seus tentáculos, destruindo as vias, derrubando residências e comércios e inundando suas ventosas, provocando a cada ocasião centenas de afogados e soterrados. Os trens ficavam encharcados e alguns enferrujavam. Era preciso aguardar o fim da tempestade, quando o gigante voltava a dormir, para que os sobreviventes dessem início à reconstrução.

Já na estação seca, o calor era tão forte que as águas embaixo evaporavam e o polvo se esparramava pela areia, deixando a poeira subir. Tiveram que construir filtros e telhas, o que mesmo assim não adiantava muito. O pior de tudo que, durante um período prolongado de seca, o grande molusco morreu.

Muitos comemoraram, inconsequentes e ingênuos, pois acreditaram que afinal haveria tranquilidade com o retorno das águas, porém o polvo, morto, não teve como resistir quando estas chegaram.

Foi, portanto, tragado pelo dilúvio, junto com aqueles que o parasitavam.
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Público
CATEDRAL

Elevo-me para rasgar o céu
Um órgão cuja música se petrifica.

Paredes que ascendem
Abrangem
Não cedem.

Teatros em rocha e sombra;
Sonhos de eternidade
abrindo-se em êxtase.
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Público
SAMSARA

Brilha a cidade
Tudo parece girar
Vêm os ventos
Carregados de poeira
Que se imiscui às rodas.

Atropelamentos.
A cidade envelhece
Para depois se renovar
No deslize do sangue
Que retorna.
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