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@andreajguesse há 1 ano
Público
A VIDA CINZA Estou observando uma reforma que já perdura há meses. Um retrofit, pelo que li em um site de arquitetura. Uma casa colonial transformando-se em uma casa "moderna". Saiu parte do telhado colonial, entrou uma varanda com laje em balanço—imponente, flutuando com todo o peso do concreto, como se fosse a penugem de um pássaro. A cor externa, antes em um tom tijolo queimado, deu lugar a um bege acinzentado. O piso da varanda em balanço, cinza. Todo o cimentado da área externa se expandiu, sepultou canteiros e tomou a forma de um mar cimentício oneroso, que tenta imitar a sabedoria popular do cimento queimado—cinza. A piscina, antes em um tom sobre tom azul de pastilhas, seguida igualmente pela sauna em pastilhas azul mais claro, foi descascada como uma banana. O cinza, ainda mais escuro, tomou conta. Suas pastilhas foram substituídas, ao som interminável da serra elétrica, por peças gigantes de porcelanato idênticas à pedra de ardósia — apenas mais claras, e mais cinzas. A parede do muro dos fundos resiste; continua em um amarelo suave. Mas não ficará assim por muito tempo. Ontem, foram descarregadas mais latas de tinta, que provavelmente estão em algum tom de cinza. A modernidade é cinza. Mas o céu ainda é azul. As árvores na rua continuam verdes. Por quanto tempo as cores da vida resistem à modernidade e a monotonia imposta pelo homem cinza?

Comentários (1)

@tibianchini · há 1 ano
Quando eu era pequeno, as TVs não tinham tanta tecnologia - a TV que tínhamos em casa sequer possuía um controle remoto. Não havia menus na tela: havia uma tampinha que, ao abrir, revelava diversos botõezinhos giratórios. Um desses botões chamava-se "SATURAÇÃO". É claro, o termo ainda existe hoje nas TVs modernas, e basicamente para a mesma coisa: carregar a imagem com mais ou menos cor. Se você virasse este botão todo para a esquerda, a TV iria mostrar o mundo conforme a sua casa "moderna": todo cinza. Acho que falta saturação na nossa vida. Nós nos saturamos com tanta coisa inútil, que perdemos a capacidade de apreciar as cores. Nos anos 80 (sim, eu vim de lá), as pessoas andavam com roupas coloridas, pintavam as casas, as ruas... Havia uma claridade que não disputava espaço com as demais coisas. Hoje, parece que a ideia é "sumir". (Tudo isso só pra dizer que achei o seu texto maravilhoso, e que ele me fez despertar lembranças - inclusive das casas de piso quadrado de terracota, telhados antigos e paredes coloridas...)
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