avatar
@rosana858 há 3 meses
Público
O Espelho de Pandora Não temas o que libertas — o que retorna é apenas aquilo que está pronto para ser compreendido. Como todas as lendas, também esta tenta traduzir o que escapa à razão — aquilo que mora entre o mistério e a ignorância. Mas e se Pandora não tivesse aberto a caixa? Teríamos sido poupados da dor, da solidão e dos desvios do espírito? Ou, sem os males, teríamos perdido também o impulso de nos compreender? **************************************************** O céu rugia como se antigos deuses despertassem em suas nuvens. O vento uivava, trazendo a memória de Zeus e dos Titãs — um sopro quente que abria fendas entre galáxias. Prometeu, porém, caminhava nas entrelinhas do ar, lembrando que todo fogo roubado é também um convite à consciência humana. A tarde exalava o perfume de flores que jamais existiram neste século — fragrâncias vindas de um jardim desaparecido, onde as primeiras sacerdotisas dançavam com a lua. Entre esses aromas, uma voz ergueu-se como eco de uma profecia esquecida: — Eu não sou culpa. Sou o dom divino de ver o invisível. **************************************************** Na Grécia, uma pequena vila adormecida parecia um relicário de eras. Uma prosaica rua escondia uma loja de antiguidades; o silêncio guardava mais que peças — sepultava pactos, segredos, invocações e presságios. Quando a porta rangeu, a energia se adensou. Um corvo cruzou o teto como mensageiro das antigas Moiras, anunciando que os fios do destino seriam tocados. A moça entrou acompanhada do abutre — o guardião ancestral das passagens, incompreendido pelos séculos, mas reverenciado pelas pitonisas que sabiam ler em seu voo, o sinal do recomeço. A forasteira viera para dizer que é impossível prender a alma da mulher, mesmo que em um vaso de ouro, envolto em papéis falsos e rótulos de mentiras. Seus olhos buscavam o objeto que trazia seu nome — aquele que atravessara a história usando o medo como ferrolho para esconder a verdade. Tateou prateleiras e paredes usando a psicometria. Leu, com o terceiro olho, símbolos ocultos. Lá fora, a tempestade batia contra as vidraças como se quisesse amedrontar quem ousa vislumbrar além da moldura. A neve caía pesada, deixando tudo igual, branco, sem referência — apenas para testar a ousadia dos que não temem buscar pensamentos próprios. Então o relógio badalou. Não marcava horas, mas a passagem entre universos. E, segura de si, ela cruzou o lusco-fusco e encontrou um velho baú. A fechadura ruiu como se reconhecesse sua dona. Dentro, repousava a ânfora — o coração adormecido do próprio mito. Pandora se aproxima da caixa — aquela onde, um dia, disseram que armazenava inveja, crueldade, fome e desespero. Passa os dedos sobre a tampa, como quem toca o sagrado. Abre-a com delicadeza, afastando o fundo falso e o veludo vermelho. E então vê. Não há monstros. Não há sombras. Há apenas um espelho. E, sem temor, ela se vê por inteira. No reflexo, reconhece a si e a todas as mulheres que existiram antes e depois dela. Revela ao mundo que o feminino nunca foi causa da discórdia, mas o fio que tece a consciência do amor. E, sob o cristal, como um sussurro guardado por milênios, repousa aquilo que jamais deveria ter sido aprisionado: a esperança — ainda viva, ainda pulsante. Ela estava de volta não para apagar o passado, mas para ressignificar o que chamaram de maldição. E maldição foi ela ter acreditado que a mulher não pode olhar além dos limites impostos a ela. Porque, um dia, quando ela abriu aquela caixa, ela não sabia quem era. Não conhecia sua força. Agora, porém, voltava para refazer o gesto — não por curiosidade, mas por consciência.

Comentários (0)

Sem comentários ainda.
Entre para comentar.