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@tibianchini há 5 meses
Público
O contrabaixo no meio da sala Se eu me calo, é porque não me importo. Se eu dou espaço, é porque não gosto. Se eu procuro, é porque estou pressionando. Se eu finjo que está tudo bem, é porque sou dissimulado. Estou cansado de ser um monstro. De acabar com vidas e casamentos felizes. De não ser compreendido, De ser temido como um predador, Prestes a acabar com a sanidade mental de pessoas decentes. Estou cansado de estar errado. De agredir mesmo quando não faço nada. De ser o chato, o ranzinza, o inflexível. O maldito autista insuportável. Não quero mais pensar em nada, nem em ninguém. Quero pensar em mim. No que restou de mim. E vocês, que me lêem, não se iludam: Eu sou um ser desprezível, que inclusive Tem a cara-de-pau de me fingir de pessoa do bem, Enquanto destruo corações e mentes ao meu redor. Eu, o vil, o mau, o torpe. O que, mesmo sem fazer nada, atrapalha. O que, mesmo calado, ofende. Mesmo calado. Não esperem que eu seja um piano, De cauda, brilhante, dando glamour ao ambiente: Eu sou o feioso, o rude, o agressivo. O eterno inconveniente. O que incomoda mas não pode ser expulso. O contrabaixo no meio da sala. Se eu cantar, perceberão todos como sou dispensável, E se arrancar as minhas cordas, Tornar-me-ei ainda mais uma bagagem grande e inútil. Tudo isso, até o dia em que não estiver mais, Em que ninguém mais puder ouvir falar de mim (Não que alguém vá me procurar um dia, eu sei) Até o dia em que meus graves ríspidos e intrusos Não mais invadam a doce vida de ninguém. E aí, sim, dirão que, no fundo, ao longe, Eu até que era uma boa alma, Eu até que serviria a um propósito, Ou que poderia ser útil para a felicidade de alguém. E um dia, eu sei, alguém dirá, com lágrimas de crocodilo, Como aquele rapaz era uma boa pessoa.

Comentários (1)

@JuNaiane · há 5 meses
Todos precisam de um vilão. Que não sejamos os vilões de nós mesmos.
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