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@rosana858 há 5 meses
Público
Esta crônica é um retrato do trânsito que atravessamos todos os dias — caótico, intenso, mas cheio de detalhes que muitas vezes passam despercebidos. Um convite a enxergar a rotina urbana com novos olhos. Entre Buzinas e Semáforos As cortinas do dia se abrem: 06h30. Saio apressada, mas a manhã ainda sussurra. O perfume das flores invade o carro, a brisa fresca dança entre as folhas, e os passarinhos orquestram uma sinfonia delicada. Pelo retrovisor, a natureza se despede devagar. Um casal caminha com sorrisos largos, alheio ao mundo que me espera. Meu trajeto é um desfile secreto, visível apenas para olhos atentos. Cada gesto, cada sombra, parece carregar histórias que ninguém percebe. Subo os vidros. A cidade me engole. Ligo o som: a melodia da natureza se cala. O tráfego explode em buzinas e roncos de motor. Ônibus lotados passam apressados; passageiros exaustos encaram a vida com olhares vazios. Todos em alerta, protegendo-se de desconhecidos, navegando por espaços que parecem invisíveis uns aos outros. Carros avançam, motos deslizam entre frestas como se desafiassem a gravidade, e o grito de uma ambulância corta o ar, exigindo passagem — talvez levando segundos de vida que ninguém mais pode medir. À direita, uma vitrine exibe manequins imóveis, vestindo roupas de uma estação que ainda não chegou. Uma loja anuncia liquidação de móveis; outra promete um carro 0 km com parcelas que “cabem no bolso”. Outdoors piscam promessas: pizzarias, academias, desejos que meus olhos já não alcançam. Um ciclista arrisca-se na avenida sem pista própria. A luz amarela treme. Um pedinte ergue um papelão: o PIX também serve como esmola. Jovens bocejando atravessam a faixa, hipnotizados pelas telas dos celulares, revelando preguiça e desalento diante da jornada que ainda nem começou. Os carros param. Um flanelinha corre e, sem meu consentimento, joga água no vidro — mais suja do que limpa. Mais à frente, bolinhas coloridas flutuam no ar, girando em mãos habilidosas: um show de malabarismo improvisado. O sinal verde me chama. Pacotes de balas pendem dos retrovisores como um varal; um moço os recolhe com precisão, recebendo moedas rápidas de mãos apressadas. Ninguém vê ninguém. Todos enclausurados em mundos particulares que fingem ser globais, mas se fecham a cada toque. A cidade pulsa — ensurdecedora, intensa, viva — e, por um instante, sinto que cada buzina, cada freada, cada sorriso distraído, é uma nota na sinfonia caótica de infinitos personagens. @rschumaher

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