@CrisRibeiro
há 6 meses
Público
#Desafio 237
Cronista de mim
Nasci.
O petróleo escorria
nas veias da história:
crises,
ditaduras,
silêncios.
O susto do primeiro choro.
A vida entrando
sem medir tamanho.
Cresci.
Cresci entre silêncios,
cresci entre descobertas,
cresci aprendendo:
o corpo fala,
mesmo quando a boca cala.
Meu país tropeçava
na democracia.
Eu tropeçava no espelho,
tentando reconhecer
quem era aquela
que me olhava de volta.
Vieram os vinis:
febre girando,
ritmo rodando.
Vieram as cores da TV:
sonhos pintando,
vidas cintilando.
A sombra de Chernobyl
rasgava o céu de medo.
E dentro de mim,
uma inquietação
que não cabia
em caderno de escola,
sem margens, sem fim,
sem fim.
O mundo desabava muros,
eu erguia os meus
para me proteger.
O mapa se redesenhou
na poeira de Berlim.
E eu, língua incendiada,
querendo amor sem moldura,
querendo amor
sem fronteira.
Vieram guerras distantes,
aviões em lâminas no céu,
planeta em chamas,
fogo, fogo, fogo,
gritando por ar.
Vivi meus próprios incêndios,
aprendi a respirar poesia.
Descobri Drummond,
e soube:
dentro de mim
cabiam multidões.
O século virou,
eu virei junto:
mãe de mim,
mulher de cicatrizes,
mulher de coragem.
A internet conectava continentes,
eu queria
me conectar comigo.
Torres caíram,
presidentes desabaram,
veio o silêncio da pandemia:
solidão partilhada
em janelas virtuais,
saudade feita de pixels.
Hoje caminho
entre máquinas que aprendem,
climas que mudam,
humanos que se perdem de si.
Carrego os anos como amantes:
alguns me feriram,
outros me deixaram marcas
que aprendi a lamber devagar.
Fui me despindo das ilusões,
enquanto a humanidade se vestia
de cabos,
calos,
cores,
satélites,
redes,
rodas.
Ainda aqui.
Ainda danço.
Danço sobre cinzas.
Danço sobre telas.
Ainda.
Sou carne
que arde em segredo.
Sou cronista de mim.
Cada ruga: um capítulo.
Cada fenda: um desejo.
E se ainda há precipício,
eu atravesso.
Atravesso em prosa,
Atravesso em poesia.
Porque viver, aprendi,
é narrar-se,
Narrar-se.
Antes que o silêncio
conte por mim.
Cr💞s Ribeiro
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