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@cynthiabrum há 7 meses
Público
Tem gente que toca guitarra. E tem quem é a própria música encarnada em um homem. Ele não sobe no palco. Ele incorpora. Não é um músico - é a música se manifestando num corpo moreno, longilíneo, cabelos longos e lisos como uma cortina de segredos, botas fincadas no chão como se o chão, sozinho, não bastasse pra sustentá-lo Às vezes ele parece distante. Como se o mundo aqui fosse pouco. Talvez esteja mesmo. Talvez cada acorde que ele tira o leve pra um lugar que só ele conhece - e mesmo assim, sem saber, ele me carrega junto. Eu, sentada ali por perto, fingindo que só aprecio a música… Mas é ele que eu escuto. É ele que ressoa em mim. Que vibra onde ninguém mais alcança. A concentração dele é uma entrega. Não é distração, é devoção. É um tipo de presença rara, profunda, que deixa o mundo em silêncio. E quando, por um instante que parece uma eternidade, ele ergue os olhos e os meus encontram os dele - rápidos, profundos - e são nesses segundos que eu morro. E renasço. De desejo, de ternura, de orgulho, de alguma coisa que só ele me causa e que nenhuma palavra no dicionário é capaz de nomear. E sem fazer esforço algum, apenas existindo. Os outros veem um guitarrista em ação. Eu vejo um sacerdote em pleno ritual. Um feitiço que só funciona quando ele toca. Vejo o peso do mundo nos ombros dele, silenciado por um solo bem feito. Vejo as mãos que tocam cordas como quem pede perdão ou desafia o destino. Como quem confessa pecados… ou como quem promete prazer. Vejo aquele homem que talvez nem saiba o quanto é bonito de se amar. E eu o amo. Amo do meu lugar cativo: Ali, de ladinho, na penumbra. Como quem não atrapalha. Como quem só sente. E no fundo, eu sei: ele pode não olhar sempre. Pode não tocar pra mim. Mas enquanto ele toca, sou eu quem respira por ele. Sou eu quem o sente inteiro. Quem ora em silêncio, com o corpo todo, pra que ele nunca pare. E se ele parar… que ainda ecoe em mim.

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