avatar
@tibianchini há 9 meses
Público
Pedaço de Papel (Poemas Antigos 015) I- Invidia Queria eu ser tu, papel, um dia; Alvo, límpido, às vezes preenchido De palavras de uma reles poesia; Do desenho de um jardim florido. Tu não falas, não sentes, não choras; Nada fazes; apenas transparece O que alguéns escreveram, ante auroras Que por causa de teu brilho não se esquece. Tu não sentes, nada, nem de amor És capaz de expirar, pela saudade; Só consegues reviver alheia dor De quem escreve, e sente de verdade. Queria, minha folha, ter um dia Um só pedaço de teu corpo alvo e puro; Para inspirar a minha mágoa e agonia Neste grafite negro do lápis que seguro. Mas, de amor, meu vão papel, não tens o gosto, E de ternura não conheces o perfume; E tuas linhas não adoram nenhum rosto Nas brancas bordas que consideras teu cume. És tão morto, enfim, caro papel, Que não refletes nem os mares, nem o céu; E que não serves, para mim, de inspiração; Que ser igual a ti, já não queria Pois assim sendo, logo me queimaria Na experiência doce de uma paixão. II- Celulose Folha, folha, página branca da minha existência; onde posso me dizer de ti, ó papel límpido, para que consiga obter de ti a preciosa inspiração? Não, a inspiração é divina; deve brotar da alma e não de ti, caro papel; tuas pautas claras, teu corpo puro a mim não inspiram, a ninguém inspiram. Mas, então... para que serves, senão para emprestar-me teu corpo alvo, puro e belo, para que possa, por mim mesmo, escrever, dizer, sonhar... Ah, minha humilde folha! Invejo-te tanto... És clara, mas não transpareces o que sentes; então, que seja eu também uma folha, limpa, solta, que um vento leva, e, às vezes, traz, para que eu consiga, então, assim como tu e em ti, roubar a magia dos poetas - e, creia: eles existem - que venham por ventura pegar-me nas mãos. Mãos que empunham, com graça e opulência, os belos rabiscos do duro carvão. III- Soneto Tenho em mãos uma folha; mas não me vem O interessante, algo que não salta Aos olhos, à primeira vista; me falta A dita inspiração: escrever a quem? Escrever àquela que deixou-me sem Seus lábios suaves, que este tolo exalta; Compor uma ária, escrevê-la em pauta, Escrever nada; escrever a ninguém. Tenho em mãos a folha, ó papel maldito; E maldito seja! Não quero escrever Sobre o nada! Sobre estas tortas linhas Não guardarei o que eu não acredito: Acredito em todas as saudades minhas, Acredito em amor; de amor vou viver!

Comentários (0)

Sem comentários ainda.
Entre para comentar.