@EscritosdeVitorHugo
há 10 meses
Público
SOMBRA DA NOITE
Mais uma entrevista, mais uma moça simpática que me disse: "Vamos entrar em contato". No entanto, a essa altura, só me resta a esperança de ao menos me avisarem do "não". Entro em casa derrotado, me encontro com a solidão, vou à sala e vejo lá minha velha poltrona. Eu me sento, apago as luzes, fecho os olhos e me lamento internamente, pois, de tão sozinho, não tinha ninguém para dizer como me sinto. O dono dessa poltrona e a esposa que ele amava se foram; o destino os tirou de mim, e agora percebo o quão inútil eu sou. E por isso, permaneço de olhos fechados, me açoitando, me cortando e me torturando, fazendo do meu corpo o inferno da minha alma.
E quando me saciei da minha própria dor, abri os olhos e então eu vi. Vi, em meio à escuridão da noite, a silhueta de um homem, uma sombra. Eu não via o seu rosto, mas sentia; na verdade, eu sabia que ele estava olhando para mim, me observando, me julgando, me lembrando daquilo que eu merecia, mas meus pais é que levaram. Eu também olhava para ele fixamente. Eu estava paralisado, não conseguia mover um músculo; tudo o que conseguia era olhar. Olhar para a escuridão daquele corpo, olhar para milhares de abismos que, ao se chocarem, moldaram sua forma. Tudo o que podia fazer era sentir. Sentir o frio gélido que me congelava até que todo o quente se fosse. Só me restava ouvir. Ouvir os gritos de agonia das vidas que despencavam, se prendiam na espiral de espinhos lá de dentro do abismo. Suas peles eram rasgadas feito roupa sendo rasgada, suas carnes eram arrancadas e seus ossos triturados, feitos grãos da existência. E depois de tudo isso, só havia a inexistência.
Tinha medo e desejo. Eu queria e não queria. Lá, parado e indeciso, mantive tudo escuro. E a sombra se aproximava, seus abismos me fitando, salivando, cheios de fome! E a sombra vinha, vindo, me esganava e estrangulava, seus abismos me puxavam, me jogavam nos espinhos. O ar já não sobrava. Estava perto, estava perto! A dor logo passaria! Mas o medo me alcançou, me puxou e me levou, levou de mim a minha mão, que, indo até o interruptor, finalmente ligou a luz! Não foi dessa vez que a sombra da noite me levou.
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