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@legiao há 11 meses
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Capítulo 3: Petróleo do Futuro O sol já começava a se esconder atrás dos prédios de Goiânia quando os três se reuniram novamente para definir o próximo passo. As interações no perfil Ainda Somos Jovens estavam crescendo mais do que esperavam. E, como haviam prometido, era hora de escolher a próxima música. Pedro, com o notebook no colo, abriu a playlist. — Depois de ‘A Dança’, vem ‘Petróleo do Futuro’.— disse, olhando para os dois. Letícia ergueu as sobrancelhas. — Esse título parece meio... distópico. — Ou visionário. — completou Caio. — Vamos ouvir com atenção. Acho que essa aqui vai pegar num ponto mais profundo. Eles colocaram os fones e deixaram a música rolar. Em silêncio, prestaram atenção em cada verso, cada quebra melódica, cada palavra entredita. A canção tinha algo de esquisito. Não era fácil. Não era pop. Mas havia verdade ali. Uma confusão de ideias que fazia sentido justamente por não fazer sentido de cara. > “Quantas vezes me disseram: ‘Tu és forte!’ ‘Tu és forte!’ E eu não sabia.” Letícia fechou os olhos por um momento. Aquilo a tocava de forma íntima. Sempre se sentira pressionada a ser a “forte” da família, a que não chora, a que resolve. E, naquele verso, encontrou o eco das cobranças que nunca soube nomear. — Essa música parece um espelho bagunça do. — murmurou ela. — Fala sobre esperança, mas também sobre o fim dela. Como se a gente estivesse tentando acreditar que vai dar certo, mas sabendo que pode não dar. Pedro fez que sim com a cabeça. — E tem essa parada do futuro, sabe? Como se tudo estivesse sempre adiado. A felicidade, a liberdade, o sucesso... tudo lá na frente, como um petróleo que nunca chega. E a gente aqui, tentando se abastecer com promessas. Caio riu, amargo. — Cara, isso é exatamente o que a gente tá fazendo. A gente saiu de casa achando que ia fazer sucesso. Mas no fundo, a gente nem sabe o que significa sucesso. A gente tá correndo atrás de um petróleo que nem sabe se existe. Silêncio. Então Letícia abriu o celular e começou a gravar, com a câmera virada para o pôr do sol atrás de um terreno baldio. — Vocês sabem o que é o petróleo do futuro? A gente também não. Mas a gente tá aqui, procurando. Talvez não exista. Talvez a gente mesmo tenha que inventar. Enquanto isso, seguimos. Entre ruínas e postes, entre likes e dúvidas. O vídeo, postado naquela mesma noite, foi intitulado: “Capítulo 3 – O Petróleo do Futuro (e outras ilusões que movem o mundo)” A legenda complementava: > A terceira música da Legião Urbana nos lembra que não dá pra viver só de promessas. Mas também não dá pra parar. Porque o movimento é o que nos resta quando não temos direção. E, às vezes, é nele que a gente se encontra. Na manhã seguinte, receberam uma mensagem direta no perfil. Era de uma mulher chamada Ângela, que contou que ouvia Legião na juventude e chorou ao ver o vídeo. Disse que “Petróleo do Futuro” era a música que ela ouvia quando teve que largar a faculdade pra cuidar da mãe doente. Que aquela canção, para ela, não era sobre esperança — era sobre resistência. Pedro leu a mensagem em voz alta. Os três se entreolharam em silêncio, profundamente tocados. Caio então disse: — “Acho que a gente tá começando a entender o poder disso tudo. Não é só sobre a gente. É sobre todo mundo que já tentou, que já falhou, que já sonhou.” Letícia sorriu. Pedro abriu o mapa. — “Próxima parada?” — “Catalão.” — sugeriu Letícia. — “Pequena, mas cheia de histórias. A gente encontra as ruínas de um sonho em qualquer lugar.” E partiram. Sem saber se havia petróleo adiante. Mas com combustível suficiente para mais uma cidade, mais uma música, e mais uma verdade crua para descobrir.

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