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@ellen há 11 meses
Público
Capítulo 2 Amanheci sob um céu azul pálido. Não um céu vazio, mas um teto aberto, que parecia convidar-me a explorar mais, a sentir o pulsar dessa cidade suspensa no tempo. Decidi sair cedo e atravessar o coração de Lisboa, caminhando pela Rua Augusta até chegar ao Arco triunfal. Ali, a paisagem se desdobrava como um quadro, e eu sentia que cada pedra, cada sombra nas fachadas, guardava uma história antiga, algo que só podia ser percebido no silêncio. Era estranho estar ali, sozinha. Não havia ninguém passando apressado, nenhuma conversa em voz baixa vindo das esplanadas. Ainda assim, tudo parecia... vivo. Eu podia jurar que percebia algo vibrando nas paredes, como se o próprio ambiente estivesse consciente da minha presença. Andei devagar, observando detalhes que muitas vezes passam despercebidos: a textura desgastada dos azulejos, as rachaduras sutis que formavam padrões quase deliberados. Era um convite para reparar em cada nuance, como se o mundo estivesse disposto a me revelar seus segredos. Decidi entrar em um café que, no meu mundo, sempre fora conhecido por sua atmosfera acolhedora. As mesas estavam lá, perfeitamente arrumadas, como se esperando clientes que nunca chegariam. Fiquei algum tempo parada na entrada, sentindo um misto de nostalgia e fascinação. O aroma do café ainda parecia pairar no ar, mas de onde ele vinha? Não havia máquina ligada, nem vestígio de movimento humano. E mesmo assim, era tão real. Sentei-me junto a uma janela. A luz da manhã atravessava os vidros e caía sobre a mesa à minha frente. Tirei o caderno de notas e comecei a escrever. Queria registrar tudo o que estava vivendo, as sensações que surgiam à medida que me conectava com esse lugar sem presença humana. Talvez, ao descrever cada detalhe, eu conseguisse compreender melhor o que significava existir aqui, nesse intervalo entre a memória e a solidão. Pensei na próxima parada. Onde eu deveria ir? A cidade toda era um convite. Do Castelo de São Jorge, com suas muralhas antigas e vista panorâmica, às ruas tortuosas de Alfama, cada canto parecia prometer algo único. Decidi que, ao terminar meu café imaginário, seguiria até o Castelo. Queria ver Lisboa de cima, observar suas linhas e curvas de um ponto elevado, como se pudesse alcançar uma nova perspectiva sobre minha jornada. Com a decisão tomada, guardei o caderno, levantei-me e deixei o café como estava, intocado, mas de alguma forma vivo. Saí novamente à rua, com o sol já um pouco mais alto no céu. As ruas ainda estavam silenciosas, mas eu não me sentia isolada. Ao contrário, havia um conforto em saber que aquele mundo permanecia comigo, em cada passo, em cada esquina que eu virava. Caminhei em direção ao castelo, meu olhar atento a cada detalhe. Afinal, se este era o início do meu segundo capítulo, eu queria que ele fosse memorável. Não como uma repetição do primeiro, mas como um novo caminho a seguir. Subindo pelas ruelas estreitas, notei como o pavimento parecia refletir uma luz suave, quase imperceptível. Era como se o próprio chão estivesse guiando meus passos até o alto. Os sons, ainda inexistentes, davam lugar a uma atmosfera de calma absoluta. Sem pressa, cheguei aos portões do castelo. As muralhas antigas pareciam guardar os segredos de um tempo que eu nunca viveria, mas que agora, de certa forma, estava presente ao meu redor. No interior do castelo, tudo era vasto e ao mesmo tempo próximo. As pedras tinham um calor próprio, como se guardassem memórias do sol que as havia tocado por séculos. Percorri o espaço com cuidado, observando as torres de onde um dia se vigiou a cidade. A vista, do ponto mais alto, era algo que eu jamais poderia descrever por completo. Lisboa se estendia como um livro aberto, cada telhado uma página, cada praça um capítulo. Mesmo sem ninguém para preencher aquelas ruas, havia uma presença constante, uma pulsação sutil que me envolvia. Parei ao lado de um parapeito, deixando a brisa tocar meu rosto. Ali, finalmente entendi algo importante: eu não estava apenas observando. Eu fazia parte desse cenário. Meu papel não era apenas o de uma espectadora solitária, mas o de uma narradora que, ao registrar, se tornava uma ponte entre este mundo silencioso e a memória viva do outro lado. As horas passaram sem que eu percebesse. Ao descer do castelo, senti um peso doce no coração, a certeza de que algo havia mudado. Eu estava encontrando um propósito neste diário. Não se tratava apenas de registrar lugares, mas de capturar o que era impossível ver ou ouvir: a alma que persistia em cada pedra, cada praça, cada pedaço de céu. O que começou como uma simples caminhada tornou-se uma espécie de revelação.

Comentários (1)

@ellen · há 11 meses
Caminhei de volta pelas ruas agora banhadas pela luz do entardecer. O céu começava a se tingir de laranja e púrpura, cores que pintavam o cenário com uma melancolia reconfortante. A Praça do Comércio, que antes parecia tão vazia, agora me parecia plena. Não porque houvesse mais movimento, mas porque minha percepção havia mudado. Cada detalhe que antes parecia estático agora era uma parte viva de uma narrativa que só eu podia contar. Assim que cheguei ao meu refúgio, sentei-me para escrever as últimas linhas do dia. Eu sabia que, no dia seguinte, um novo capítulo esperava. Mais ruas, mais histórias, mais descobertas. Mas hoje, este era o meu encerramento: uma cidade silenciosa, uma narradora solitária, e um diário que se tornava, a cada palavra, um testemunho de que eu existia
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