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@uiaramei há 1 ano
Público
Queridos leitores, Hoje trago um tema delicado, que pode acionar gatilhos, mas que precisa ser dito. Recentemente, um vídeo da angolana Rosy Manu viralizou nas redes sociais, trazendo um desabafo que ressoa com muitas de nós: "Ninguém entende o quão ruim é ser desejada, mas nunca amada". Essa frase carrega um peso imensurável e reflete uma realidade dolorosa: a solidão da mulher negra. Esse não é um problema individual, mas estrutural. Um silenciamento que atravessa gerações e nos segue em todos os espaços — no mercado de trabalho, nos círculos sociais e até dentro de nossas próprias famílias. Precisamos trazer essa pauta para as rodas de conversa, para os debates, para os encontros onde se fala sobre afeto e pertencimento. Porque, sim, ser amada também é um direito. Na minha própria experiência, percebo que não basta ser bonita, inteligente, independente e funcional para quebrar essa barreira. O racismo estrutural nos reduz a fetiche, nos transforma em objeto de desejo, mas não de amor. Nos coloca em uma posição em que não podemos escolher, apenas ser escolhidas. E se não somos, seguimos invisibilizadas. Pretendentes? Tenho muitos. Desejada? Talvez. Mas nunca ouvi um "Eu te amo" ou sequer um pedido de namoro. Muito menos um "Casa comigo?". O que ouço, na verdade, é que sou "melhor do que eles" — assim dizem. Mas nunca sou a escolhida. Será que sou tão grandona assim? Será que tenho escolhido errado? Ou será que simplesmente não sirvo para ser esposa porque sou negra? Casa-se com uma mulher branca. A mulher negra? Torna-se amante. Isso não é exagero, não é mimimi, é constatação. E não, não é um desabafo. É a realidade. Dizem que escolho demais. Que minha régua está alta. Mas desde quando exigir o básico virou sinônimo de arrogância? No começo, sim, havia escolhas — estudo, trabalho, porque a vida nos exige o triplo. Mas depois? Depois, não era sobre escolhas. Não era sobre régua alta ou sobre merecimento. Era sobre uma verdade incômoda: nunca serei boa o suficiente para estar com alguém verdadeiramente. Só por ser negra? Isso não é falta de terapia, nem falta de amor próprio. É uma construção histórica que insiste em nos apagar como protagonistas de nossas próprias histórias. Como escritora, busco mudar essa realidade dentro das minhas narrativas. Nas minhas histórias, mulheres negras são amadas, respeitadas e ouvidas, independentemente da cor. Porque eu as vejo. Elas são partes de mim, fragmentos do que me quebrei nas relações para me tornar quem sou hoje — perfeita na imperfeição do meu próprio caos. Minhas personagens carregam essas fissuras, essas tantas vezes em que tentei caber onde não devia, as tantas vezes em que amei demais e não fui amada. Mas, ainda assim, eu continuo acreditando no amor verdadeiro. Falar sobre isso é um ato de resistência. E resistir é existir. Vamos continuar esse diálogo? Visite o meu site: www.uiaramei.art.br

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