avatar
@tibianchini há 1 ano
Público
Gdánsk (015 de 365) Coloquei os olhos para fora da casa, Para tentar ver um rosto amigo. Vi as paredes de tijolos descascados, Com panfletos colados, clamando pelo povo, Recobertos pela fuligem das esteiras dos Panzer. Tentei espiar algum movimento: Agucei os ouvidos para tentar escutar Se diziam algo aqueles velhos homens de casaco A dar miolos de pão aos cães na calçada; Se ainda havia sons na Dom Sprzyja Onde as antigas prostitutas se engalfinhavam Pelas carícias e moedas dos clientes. Tentei abrir as narinas Para captar o cheiro doce das broas de milho, O cheiro acre da peixaria às sextas O cheiro da urina dos gatos, a passear na guia. Não consegui: o único movimento Vinha das ratazanas a arrastar pedaços Das carcaças dos Bohaterowie, ainda pelo chão. O mais alto som ainda vinha Do gorgulhar das pombas a entrar e sair Dos telhados arrancados pelas bombas, E dos buracos arrombados nos tijolos descascados. As narinas só puderam captar O resto de enxofre da pólvora, Da carne queimada dos mieszkańców, E do esperma alemão, sobre o sangue já seco Das damas da Dom Sprzyja. Coloquei os olhos para fora da alma Para tentar ver um olhar de volta Vindo de outra alma perdida. E apenas vi olhares dispersos Dos antigos soldados, a servir de cama Para as moscas varejeiras, A lembrar-se do fim das nossas vidas, Da nossa Polska, No dia primeiro e último, em Westerplatte. Os que destruíram já se foram; Não queriam nada aqui, apenas a destruição Pela simples destruição. O pó ainda revoa ao vento, Sem achar lugar para repousar, Nublando ainda mais o dia já nublado. Zmiłuj!... Vernichtung. Os que destruíram não destruíram Apenas casas, lojas e pessoas. Destruíram a mim. Destruíram a si mesmos. Não sou mais nada. Nem eles, tampouco. Coloquei os olhos para fora da vida, Para tentar não ver mais; Para olhar com os olhos da saudade Aquelas tardes alegres de sol Amarelando os vermelhos tijolinhos descascados... (Gdansk era o antigo nome da cidade polonesa de Danzig, antes da sua destruição na II Guerra. Preferi me referir ao noe original, como lembrança dos moradores mortos)

Comentários (1)

@MarU · há 1 ano
Uaaal… Não tem outra forma de descrever o que senti ao ler este texto, que não: Impactada. Uma mistura de dor com admiração pela qualidade das construções das imagens narradas. Imagens fortíssimas, muito bem escritas, o inenarrável, que ao final, nos refrigera, com a lembrança fora dos tempos de guerra e a homenagem em respeito aos descendentes advindos da região. Parabéns, Tih! Que texto.
Entre para comentar.