Nao sei exatamente com qual idade começa, mas uma hora todo mundo chega na idade que consegue introduzir o tema — “você não sabe quem morreu” — em qualquer conversa. Minha mãe e minhas tias já chegaram nessa idade. Já vinha notando isso ouvindo algumas conversas, mas hoje, durante o café da tarde, tive certeza. Sempre começa com: “você não sabe quem morreu” e é seguido pelo sagaz comentário: “mentira, mas eu vi ela não tem nem uma semana”, o que é normal. Estranho seria: “como assim, morreu ontem, eu vi ela hoje”.
Enfim, eu mesmo nem conhecia a pessoa de quem falavam, mas fiquei interessado, pois, segundo minha tia, a mulher morreu durante a missa, na parte da oração, enfarte fulminante.
Fechou os olhos para falar com Deus por ligação e acabou falando pessoalmente.
Provavelmente, nessa hora alguém deve ter gritado: “um médico, por acaso tem um médico?” O que escancara a hipocrisia: na hora que aperta, deixa-se a fé de lado, tem que recorrer à ciência.
Mas essa era a hora perfeita de acontecer um milagre: na igreja, durante a missa… pensa na ótima propaganda que não seria.
Ela economizou na viagem, já tava na casa do Homem.
Morrer numa igreja é tipo ser atropelado por uma ambulância.
Se fosse na igreja evangélica, teria confundido muito o pastor — ele olhando a mulher enfartando, indo tentar reviver ela, fazendo aquela cena, gritos, língua dos anjos, rendendo a cena — até alguém chegar no ouvido dele e falar: “pastor, essa aí não é atriz não, ela realmente tá enfartando”.
Imagina ela de joelhos, olhos fechados, do nada uma mão cobrindo os olhos dela, falando: “adivinha quem é”. Ela acha estranho, quem estaria fazendo essa brincadeira na igreja, durante a missa? Quando vira: Jesus Cristo.
Fiquei pensando: e se ela não for pro céu? Se morreu antes de pedir perdão? Mas tava na igreja. Morreu ali, porém não vai ficar ali. Será que teve a conversa:
— Oi, tudo bem, você morreu.
— Sério?
— Sim.
Ela olha em volta, esperando cair a ficha do que aconteceu.
— Pelo menos foi na igreja, tô mais perto do céu.
— Isso sim, mas não vai ficar.
Desliguei enquanto pensava essas coisas. Costumo fazer isso com frequência; antigamente falava viajar na maionese, agora não sei qual é a gíria. Maionese também não é saudável, segundo os nutricionistas de Instagram.
Quando voltei do mundo da lua, minha tia falava: “disse que…” — gosto do disse que, que é um sujeito oculto, ninguém sabe exatamente quem disse; o fofoqueiro, tal qual o jornalista, nunca revela sua fonte — “disse que ela fez as unhas no dia anterior e pintou as unhas de vermelho, que nunca pintava as unhas de vermelho”.
Nessa hora minha imaginação me levou embora de novo.
