Já ouviu falar do Ronaldo? O homem que não dava opinião sobre nada para não falar besteira. Algumas vezes até chegava a digitar, pra comentar algo, ou abrir a boca para comecar a falar, mas então desistia.
Ronaldo é o neto da Velhinha de Taubaté, a personagem mais famosa de Taubaté — depois da grávida de Taubaté e do Monteiro Lobato. A Velhinha é a senhora que acreditava em tudo, até no governo, não importa qual fosse, de direita ou de esquerda. Passava o dia todo na cadeira de balanço vendo o Brasil pela TV, era o último bastião da credulidade nacional. Ficou conhecida através dos “relatos” do grande Luís Fernando Veríssimo. Assim como o velho escritor, a Velhinha de Taubaté não está mais entre nós, mas deixou um neto. Puxando um pouco pela avó, principalmente a simpatia, Ronaldo não acredita em tudo, mas é a única pessoa no Brasil, que se sabe até então, que não tem opinião sobre tudo. Na verdade, ele parece não ter opinião sobre nada. No fundo, talvez até tenha, mas prefere não dar.
Nascido em Taubaté — mas criado em Três Corações, Minas Gerais —, sempre tentam arrancar do Ronaldo uma opinião, mas, daquele jeito mineiro que só mineiro tem, consegue sempre sair pela tangente, seno e cosseno. Algumas pessoas dizem que ele faz isso pra se defender, pra não se comprometer; outros, que quer se dar bem com todo mundo e, por isso, não abre a boca pra nada; alguns o chamam de medroso, bundão, em cima do muro, mas ele não tem uma opinião sobre quem fala dele. Só diz:
— Em cima do muro não sou.
— É sim.
— Não sou, tenho medo de altura.
E ri. Aquele riso mineiro, simpático, que derruba qualquer carranca.
A internet virou a terra do achismo. Existem mais de dois bilhões de contas no Instagram e cada uma delas tem uma pessoa com uma opinião. Cada assunto que bomba nas redes sociais, ninguém ergue a mão pra pedir a vez, todo mundo começa a falar junto. Não importa o tema, sempre vai ter uma conta falando — menos a do Ronaldo, o neto da Velhinha, e talvez por isso, por não querer dar a opinião dele sobre nada, que as pessoas querem ainda mais ouvir.
Os amigos estavam conversando sobre a invasão dos EUA na Venezuela, a captura do Nicolás Maduro. Um deles, mais à direita — quando digo mais à direita, se fosse um relógio a hora seria 3:15 —, comemorando, dizendo que demorou para ser feito, que o Trump é um herói que foi libertar os venezuelanos e, estando perto, talvez desse uma esticada e já levasse uns políticos brasileiros pra aproveitar a viagem. O outro, mais inclinado à esquerda — quando eu digo inclinado, é deitado numa cama onde os pés estão à direita da porta e a cabeceira é à esquerda, a cabeça está pra fora de tão deitado à esquerda que está —, dizia que aquilo era um crime internacional, que o Maduro, apesar dos defeitos, ainda era um presidente eleito, que outros presidentes não tinham o direito de fazer aquilo, que o Trump não estava nem aí para o povo, só queria saber do petróleo. Que primeiro ele vê o que quer, depois pensa numa desculpa para pegar. Um ladrão roubando de um povo humilde.
O destro falava que aquilo sim era homem, que apesar da sua heterossexualidade convicta, o laranjão balançava ele. O canhoto rebatia: aquilo não é um homem, é um monstro. Que há muito havia deixado de acreditar em monstro embaixo da cama, mas que, desde o que acontecera na Venezuela, estava com medo de abaixar para colocar o tênis quando sentava na cama.
E no meio da discussão, Ronaldo, o único homem que não tinha opinião sobre nada — ou pelo menos não dava —, bebia seu suco de caju tão gelado que fazia o copo suar frio, sem dizer nada sobre o que os amigos falavam.
— E você, Ronaldo?
— Que que tem eu, uai?
— Não acha que o Trump libertou aquele povo, tal qual Moisés?
— O Moisés da oficina?
— Moisés da oficina?
— Sim, pai do Júnior, filho da Ângela, irmão da Patrícia e da Pilar…
O amigo da direita interrompe, sabendo que a árvore genealógica vai longe.
— Não, Ronaldo. Moisés do Egito.
— Nunca tive no Egito, núncio Moisés. O que eu conheço é o da oficina.
— Né que você acha que o que ele fez é uma invasão, que um presidente, seja lá qual for, não pode acordar e ir invadindo e tirando outro presidente. Que o que ele fez é bullying.
— Eu já sofri bullying na escola, por causa da minha orelha. Diziam que era grande. Minha mãe falava que não, a orelha era normal, a cabeça é que era pequena.
— O Ronaldo sabe que aquilo tinha que ser feito, que nossos irmãos venezuelanos finalmente vão prosperar e vão parar de vir pro nosso país, estão invadindo.
— Não é você que é a favor da invasão? Fala que você não acha isso, Ronaldo. Você é um cara consciente. Inteligente.
— Obrigado.
— Então, como é assim, que um cara inteligente sabe que o que foi feito foi só por interesse próprio, que os EUA não ligam pra Venezuela como país, só querem saber do que pode ser tomado deles.
— É uma troca: eu te liberto, você me paga.
— Mas não foi oferecido nada. Você primeiro toma e depois fala, é o pagamento.
— Só uma garantia pela libertação.
— Mas ele não está libertando ninguém, fala pra ele, Ronaldo.
— Ronaldo não é um cego igual você.
— Ele não é um iludido igual você.
Ronaldo dá mais um gole no seu suco de caju.
— É sério, Ronaldo, que você acha que aquele boneco laranja de dois metros se importa com alguém que está lá na Venezuela?
— Você tem inveja que ele é alto e você não. O Ronaldo sabe que, pra fazer um omelete, tem que quebrar alguns ovos.
— Isso eu acho.
— Viu.
— Nunca vi omelete de ovo cozido.
— Viu, sabia que você era um cara inteligente.
— Você acha o que ele acha, Ronaldo?
— Sobre fazer omelete, aí não é uma questão de achar. É um fato. Um fato não se importa com o que eu acho. Sabe o que acontece quando o que você, eu ou o Giovani acha de um fato?
Os dois ficam olhando para ele.
— Nada, pois o fato continua igual perante ao nosso achismo. Já foi provado por A mais B que, pra fazer omelete, você precisa quebrar os ovos, bater, sal a gosto. Pode colocar mais o que você quiser, mas o básico é ovo: quebrar, bater.
Os dois amigos, direita e esquerda, ficam olhando.
— Você está falando sobre a invasão da Venezuela?
— Sobre a libertação do povo venezuelano?
— Estou falando sobre omelete.
— Mas e sobre o assunto, o que você acha?
— Acho que me deu vontade de comer um omelete.
Mata o resto de suco de caju que tem no copo, coloca o copo na mesa e levanta pra sair. Mas antes para e vira pros dois.
— Já que vocês são cheios das opiniões, me respondem uma coisa.
Os dois se ajeitam na cadeira, esperando uma opinião a respeito da política internacional.
— Vocês acham que minha orelha é grande ou minha cabeça é pequena?
