Nunca se dormiu tão mal e tão pouco. Qualquer adulto com mais de 25 anos está com o sono atrasado. Não me lembro da minha mãe, dos meus tios, falando sobre o sono. Tendo longas conversas sobre o que fazer pra dormir melhor, sobre técnicas pra dormir, porém é um tema dos adultos modernos. Toda roda de adultos em algum momento pinta o assunto.
— mas e aí, você dorme bem?
Nos anos 90, se alguém perguntasse isso, soaria como uma cantada.
— mas e aí, você dorme bem?
— Por quê, está pensando em dormir comigo?
Pra nós não é uma cantada. É uma pauta. Mais da metade da população adulta tem problemas com sono. Estamos completamente arrependidos de todas as vezes que, quando crianças, ficamos acordados até tarde quando já tínhamos que estar dormindo. Parece que agora o sono está se vingando.
A partir do momento que você passou a se preocupar com quantas horas tem dormido por noite, qual o tanto certo de horas, e pensar “se eu não dormir agora, dormirei menos do que o necessário”, dormir virou uma responsabilidade. Uma obrigação.
Somos os únicos animais que contam quantas horas de sono vão ter antes de dormir.
Deitamos com sono e cansados. Acordamos cansados e com sono.
Deixamos de fazer coisas para dormir. Festar, encontrar os amigos, transar. Quer me encontrar? Que seja em sonho. Que tal se a gente fosse pra um lugar mais aconchegante, a cama — mas você na sua e eu na minha, porque não gosto de dividir a cama. Tirar sua roupa seria uma delícia, mas tirar um cochilo mais ainda. Vamos marcar, mas de dia, pois sou tipo um vampiro, só que ao contrário.
Tem gente que fala: quando eu morrer eu durmo. Eu sou o contrário: se eu não dormir eu morro. O sono virou prioridade na vida do adulto moderno. Comer ou dormir? Dormir. Sair ou dormir? Dormir. Transar ou dormir? Dormir. Dormir só perde pra cochilar, que não é dormir; o cochilo transcende o dormir.
Durante o sono completo, o corpo trabalha — quando dormimos, nosso corpo realiza funções restauradoras cruciais, como a reparação de tecidos e a recuperação muscular, além de fortalecer o sistema imunológico e consolidar memórias. O cérebro organiza informações, elimina toxinas, regula o humor e processa emoções, enquanto o corpo libera hormônios importantes para o crescimento e a regulação. Durante o cochilo, parece que ninguém no corpo trabalha: todo mundo dorme junto. O cochilo é um sono despretensioso, um sono feliz, um sono sem responsabilidade com quem quer que seja.
No barzinho. Por volta de dez horas da noite, a mulher está numa esquina do balcão, o homem está do outro lado. Entre olhadas no celular e conversas com o barman que está dentro da ilha do balcão, eles se olham, até que ele toma coragem — na verdade, já é a quinta dose de coragem — e vai até ela.
— oi.
— Oi.
— Como é seu nome?
— Carol. E o seu?
— Prazer, Carol, eu sou o Umberto.
— Prazer.
Os dois se cumprimentam com um aperto de mão, sorriem um para o outro.
— Posso ser direto?
— Deve.
— Tá. Estava te olhando já tinha um tempo.
— Eu percebi.
— Estava indo embora, mas pensei: não custa falar. Por isso vou pular todo esse papo de “tudo bem”, “o que você faz”, “música favorita”, toda a introdução, e falar de uma vez.
— Já disse que por mim.
Ela sorri com o jeito direto e ousado dele.
— O que você acha de a gente sair daqui e ir pra minha casa dormir?
— Nossa, mas calma.
— Eu falei que ia ser direto.
— Sim, mas ir transar assim… não sou garota de programa.
— Quem aqui falou em transar?
— Você acabou de falar pra gente ir pra sua casa.
— Dormir.
— Dormir?
— É, dormir.
— Desculpa, não estou entendendo.
— Ué, qual parte? Dormir. Pegar no sono. Apagar. Dormir de roncar. De babar.
— Quer que eu vá pra sua casa dormir.
— Sim. Está friozinho, eu comprei um edredom novo, eu tava te olhando e você parece ser boa de cama.
— Sexo?
— Não, boa de dormir. Sabe quando você olha pra uma pessoa e pensa: “essa pessoa deve dormir tão gostoso que faz a gente querer dormir também”? Foi o que eu pensei quando te vi.
— E não vamos transar?
— Credo, que fixação. Não. Eu não quero transar. É sexta, eu trabalhei até mais tarde a semana inteira, estou aqui só porque tinha que atender um cliente. Ele saiu, eu fiquei tomando a saideira, aí eu te vi e resolvi vir falar.
— Pra dormirmos juntos.
— Sim. O que acha?
— Mas e se eu quiser transar?
Silêncio.
— aí você procura outra pessoa. Mas se depois do sexo quiser passar lá em casa pra dormir…
Ele coloca um papelzinho no balcão com o numero e endereço.
— a cama vai estar bem quentinha te esperando. Não precisa interfonar pra não interromper meu sono, se eu durmo picado acordo com dor de cabeça. Vou deixar a porta aberta, meu quarto fica no fim do corredor, tu só entra e deita.
Ele fala e sai.
