De volta com a série: motivos idiotas para terminar um relacionamento. Pessoas que terminaram relacionamentos por coisas aparentemente idiotas, tipo comer banana de garfo e faca, fazer aspas com os dedos em momentos errados, usar muito diminutivo, etc.
O caso de hoje é: ela terminou com ele porque ele atendia a ligação sempre que tocava. O que faz a gente se perguntar: calma, só por isso? Porque ele atendia a ligação?
Mas não. Ele atendia todas as ligações. Todas as vezes. Não importa quem estava ligando, não importa onde estivesse, atendia. Sempre atendia. Sempre. Em qualquer lugar que tivesse sinal para tocar o celular, ele atendia. Casa, trabalho, carro, igreja, cinema, motel…
CENA
Motel. Eles estão no meio do sexo, ela está por cima dele.
— Isso, não para, não para.
Então o que ela mais teme acontece: um celular começa a tocar.
— Não para, é o meu, não para.
Ela continua mexendo, ele já não está mais com atenção no sexo. Quando o celular toca, ele reage igual o cachorro do experimento de Pavlov.
Ela está entregue, ele olha para o celular de canto de olho para ver se é o dele ou o dela. Deixaram um do lado do outro. Ele estica o braço pra pegar o celular, ela segura o braço dele. Ele estranha.
— O que voce ta fazendo?
— Deixa tocar. Não para, amor.
Ela mexe mais, tentando trazer ele de volta, mas já é tarde, eles não estão mais na mesma página.
— Vou atender rapidinho.
— não. Deixa. Quando a gente terminar, você retorna.
— Mas é mais fácil eu atender.
— Mas eu não quero que você atenda, quero que continue o que estava fazendo.
O telefone parece que começa a tocar ainda mais alto, como se fosse para desaforar com ela.
— Amor.
— Você não precisa sempre atender.
— É mania.
— Pois é, mas não é pra atender agora.
Ele estica a mão.
— Se você atender, eu vou embora e está tudo terminado.
— Amor.
— Estou falando sério.
O celular agora grita: ou eu ou ela.
— E se for alguma coisa séria? Questão de saúde, minha mãe, meu pai.
— Você não vai conseguir fazer nada agora, de um jeito ou de outro. Estamos longe.
— Mas se for e eu não atender, vou ficar com a consciência pesada.
— Tinha que ficar com a consciência pesada em querer atender o telefone no meio do sexo.
— Deixa eu pelo menos ver quem é.
— Se você encostar no celular, acabou tudo entre a gente.
— Amor, que exagero.
— Exagero nada. Estou falando sério.
Os dois olham para o celular, que para de tocar. Os dois se olham.
Como nenhum dos dois saiu da posição, ela recomeça a mexer.
— Fala pra mim quem é sua safada?
— Você, é você.
— Quem é meu dono?
— Sou eu, eu que sou.
O celular volta a tocar.
— O que você vai fazer comigo?
— Vou fazer tudo.
— Tudo o quê?
— Várias coisas.
— Tipo?
— Tipo um montão de coisas.
Ele responde, mas está distraído com o toque. Ele puxa ela para perto dele com a mão esquerda e, com a direita, tenta alcançar o celular.
— Não acredito que você está tentando pegar o celular.
— Eu vou só desligar então, porque me incomoda o celular tocando. Vou acabar broxando.
— Deixa tocar! Deixa uma vez tocar. Pelo amor de Deus. Tem que sempre atender. Sempre. Você não é médico plantonista para atender tudo. Ninguém depende de você atender ou não, inferno.
— Sabe que eu não consigo, tenho TOC.
— TOC nada. Só não consegue.
Ela sai de cima dele.
O telefone para de tocar.
— Ai, broxei. Por causa da discussão. Se eu tivesse atendido, nada disso tinha acontecido.
— Vou te ligar pra ver se você consegue me fazer gozar por telefone.
Ela levanta, pega umas coisas no chão, vai para o banheiro.
— Amor.
Ele fica sozinho no quarto, mexendo no celular, vendo quem é que tinha ligado. Nem percebe quanto tempo está mexendo.
Então o celular dele toca. Aparece o nome dela na tela. Ele estranha. Ele atende.
— Oi?
Ela vai saindo do quarto, já praticamente vestida.
— Você atendeu o celular comigo te ligando do quarto? Ridículo. Está tudo terminado.
Desliga na cara dele e sai.
